Empreendedores não perdem rodadas de investimento na primeira pergunta do investidor, mas na segunda — aquela que surge como desdobramento imediato da resposta dada. A tese foi apresentada em coluna publicada no Startups e sustenta que a preparação verdadeira de uma captação está em antecipar o que vem depois das respostas prontas, e não apenas montar o roteiro básico de perguntas frequentes.
O autor da coluna observa que todo fundador sabe organizar as respostas clássicas: tamanho de mercado, concorrência, time, tração, quanto pretende levantar e para quê. Uma apresentação bem construída, inclusive com ajuda profissional, resolve esse primeiro nível. O problema aparece no que ele chama de perguntas frequentes das perguntas frequentes — as indagações que cada resposta provoca e que frequentemente pegam o empreendedor desprevenido, arrancando dele a confissão de que nunca havia pensado naquele ponto.
Ele relata o caso de um fundador que acompanha, que iniciou há poucos dias as conversas de uma rodada com uma apresentação boa e uma história coerente. As perguntas que voltaram dos investidores, porém, não eram as ensaiadas, mas as seguintes — aquelas em que o empreendedor precisa pedir tempo para verificar a resposta. Segundo o texto, é nesse momento que a rodada se decide.
Para ilustrar, o autor cita o exemplo do custo de aquisição de cliente, indicador que mede quanto a empresa gasta para conquistar cada consumidor. Após informar esse número, o investidor experiente pergunta qual é o retorno por canal, o que acontece com o custo quando a verba de marketing dobra e de onde virá o próximo cliente quando o canal saturar. A primeira pergunta qualquer um antecipa. A segunda exige vivência: já ter visto um canal saturar, um concorrente reagir ou uma margem desaparecer quando o volume cresceu, ou ao menos ter conversado com quem passou por essas situações.
Na avaliação da coluna, o investidor aposta primeiro na pessoa e depois no mercado, mas em todo momento está medindo a solidez do que chega até ele. Uma resposta firme à segunda pergunta diz mais sobre o fundador do que vinte apresentações bem desenhadas, porque ela não avalia o plano em si, e sim a existência de um plano B e a capacidade de raciocinar sobre os efeitos de primeira, segunda e terceira ordem de uma proposta — incluindo a reação do mercado, a resposta dos concorrentes e possíveis obstáculos que travariam o crescimento mesmo com dinheiro em caixa.
Dois territórios concentram esse teste, segundo o texto. O primeiro é o motor de crescimento. Perguntar como a empresa cresce é o nível básico; o desdobramento é identificar qual engrenagem faz o crescimento se repetir sem esforço manual do fundador. Se a resposta for conteúdo, parcerias e mídia paga, o investidor ouviu três canais e nenhum motor. Se a explicação mostrar um canal que traz o cliente, um cliente que traz o próximo por uma razão clara e um número que comprova esse ciclo, ele enxergou uma máquina.
O segundo ponto é a economia unitária, expressão que designa a conta entre quanto custa adquirir um cliente e quanto ele vale ao longo do tempo, indicador conhecido pela sigla LTV. A pergunta de segundo nível questiona por que a conta fecha daquela forma: qual é a premissa de retenção que sustenta o valor do cliente, de onde ela veio e o que acontece com o resultado se essa premissa cair pela metade. Para o autor, o fundador que responde à primeira e trava na segunda acabou de mostrar ao investidor que o número é apenas uma planilha, não uma convicção.
A coluna traz ainda o testemunho de quem viveu o processo do outro lado da mesa. Como diretor de marketing do QuintoAndar, nas rodadas série C, com a General Atlantic, e série D, com o SoftBank, o trabalho do autor não era a apresentação em si, mas preparar a narrativa para o que vinha depois dela: por que o crescimento tinha aquela forma, o que o travava, o que aconteceria ao dobrar a aposta em um canal e como reagir se um concorrente copiasse o modelo. As reuniões boas, lembra, foram as em que a segunda pergunta já tinha resposta; as difíceis, as em que a pergunta foi descoberta na própria sala.
Ele acrescenta uma observação acumulada em mais de quinze anos de carreira: a maioria dos fracassos em iniciativas de marketing podia ter sido antecipada e, nos demais casos, um planejamento melhor não teria evitado o erro, mas o teria transformado em um erro pequeno. Com rodadas de investimento funciona igual. Muitas captações morrem pela percepção negativa do investidor sobre a qualidade do empreendedor, quando, na maior parte das vezes, o empreendedor tinha qualidade de sobra — só não se preparou para a segunda pergunta, uma falha que o autor classifica como criticável e, sobretudo, evitável.
O caminho prático sugerido é simples de descrever e trabalhoso de executar: escrever as dez perguntas que qualquer investidor fará e, para cada resposta, redigir também a pergunta que ela provoca e respondê-la. Onde o fundador travar está o trabalho real de preparação da rodada; onde responder rápido demais, convém desconfiar, pois provavelmente a planilha está falando mais alto que a experiência. Por fim, o autor recomenda testar o roteiro com quem já se sentou do lado dos investidores e sabe onde a segunda pergunta dói — não com quem apenas gosta do empreendedor. A apresentação, ele conclui, já existe; a questão que permanece é qual segunda pergunta o fundador ainda não consegue responder.