As 8 polêmicas mais estranhas que marcaram os 137 anos da Nintendo
A Nintendo acumula 137 anos de história e, ao longo de todas as suas fases, foi protagonista de episódios singulares que permanecem vivos na memória dos fãs. Entre ações judiciais incomuns e decisões que desafiavam a própria lógica, a empresa japonesa nunca escondeu suas convicções, para o bem e para o mal. Enquanto disputa espaço no mercado com o aguardado GTA 6 e segue um caminho completamente diferente daquele trilhado pela Sony Interactive Entertainment e pela Microsoft, a companhia carrega um passado recheado de momentos que desafiaram a imagem de fabricante conservadora que muitos jogadores costumam atribuir a ela.
Uma das histórias mais curiosas remonta aos anos 1960, quando a Nintendo enfrentava dificuldades na produção de cartas de baralho e buscava escapar da falência. Para diversificar os negócios, a companhia decidiu abrir um love hotel, que nada mais é do que um motel, em Kyoto. A operação durou pouco tempo e a empresa compreendeu que aquele não era o rumo adequado. Na mesma época, ela também administrou uma frota de táxis e chegou a vender arroz instantâneo, iniciativas que mostram o quanto a Big N, apelido carinhoso dado pela comunidade, esteve distante do universo dos jogos em seu passado.
O embate jurídico envolvendo Donkey Kong também entrou para a lista de episódios memoráveis. No início dos anos 1980, a Universal Studios entendeu que a Nintendo promovia o gorila como uma paródia de King Kong e levou o caso à Justiça. Para se defender, a fabricante contratou o advogado John Kirby, que descobriu um detalhe decisivo: anos antes, o próprio estúdio havia argumentado em tribunal que King Kong estava em domínio público, o que permitia refazer os filmes. Ao usar o mesmo argumento em seu favor, a Nintendo venceu a ação e, em sinal de gratidão, batizou um de seus personagens de Kirby em homenagem ao jurista.
A guerra contra a SEGA rendeu outro capítulo inusitado. Ao trazer Mortal Kombat, de 1993, para sua plataforma, a Nintendo considerou que o sangue colidia com a imagem que desejava transmitir à sociedade e optou por mudar a cor do fluido para cinza, com a justificativa de que se tratava apenas de suor. A rival não hesitou em liberar o sangue por meio de um código secreto, o que consolidou sua reputação de marca descolada e abalou a concorrente. O resultado prático foi que o jogo vendeu muito mais no Mega Drive e a Nintendo ainda conviveu com o processo de criação da classificação indicativa para os jogos eletrônicos.
O clássico Mario Party, lançado em 1999, também colocou a empresa em apuros. Os minigames exigiam movimentos intensos do analógico do Nintendo 64 e, em sessões frenéticas, muitos jogadores desenvolveram bolhas e queimaduras por fricção, com casos chegando a causar danos reais nos nervos das mãos de crianças. Um procurador de Nova York decidiu confrontar a situação e levou a questão aos tribunais. O desfecho foi um acordo no qual a Nintendo precisou desembolsar 80 milhões de dólares para produzir luvas protetoras e enviá-las gratuitamente a qualquer pessoa que solicitasse o acessório.
No auge do sucesso do Nintendo Wii, o problema foi outro: quando o público jogava Wii Sports, a alça do controle se rompia e o periférico voava em direção às telas. Centenas de pessoas relataram o ocorrido e a destruição de diversos televisores resultou em ações judiciais que acusavam a companhia de descaso. Mais uma vez obrigada a enfrentar a Justiça, a fabricante conduziu um recall massivo do Wii Remote, com o reenvio das unidades acompanhadas de alças reforçadas e capas de silicone para inibir novos danos.
O embate com a organização de defesa dos animais PETA veio após o lançamento de Super Mario 3D Land, em 2011. A entidade criou uma campanha agressiva acusando a Nintendo de apresentar um personagem que, supostamente, esfolava cães e guaxinins para vestir suas peles dentro do jogo, e chegou a produzir um título em flash chamado Mario Kills Tanooki, repleto de cenas sangrentas e explícitas. Na resposta oficial, a Big N esclareceu que a transformação tinha caráter lúdico e que a empresa não apoiava a caça de animais, ainda que tenha produzido Duck Hunt décadas antes.
Dentre tantas escolhas estranhas, o gosto azedo dos cartuchos do Switch ao menos ganhou uma explicação plausível. Preocupada em evitar que bebês e crianças pequenas colocassem as fitas na boca, a Nintendo adicionou benzoato de denatônio à composição, um composto químico de sabor amargo. A estratégia, porém, saiu pelo ralo: com o avanço das redes sociais, lamber os cartuchos virou um desafio online e a medida de segurança viralizou. O efeito colateral teve lado positivo, já que hoje todos sabem que as mídias físicas podem causar grande desconforto se levadas à boca.
Por fim, o anúncio de New Super Mario Bros U. Deluxe, de 2019, apresentou a Super Crown, um item capaz de transformar a personagem Toadette em uma versão similar à Princesa Peach. A internet não perdoou e criou a Bowsette, uma hipótese em que o vilão usaria o objeto e assumiria uma forma humana feminina. Antes que a companhia pudesse reagir, o tema já dominava os trending topics mundiais, com milhares de artes produzidas por fãs e versões variadas da ideia. A Nintendo nunca canonizou a proposta e fez questão de inserir no jogo o aviso de que apenas Toadette podia usar o item.
Na prática, esses episódios demonstram que a Nintendo segue sendo uma empresa imprevisível, capaz de gerar tanto soluções criativas quanto situações caóticas que movimentam o debate entre os jogadores. Aos 137 anos, a companhia japonesa mostra que pode sempre surpreender a comunidade, seja por vontade própria ou por consequência de suas próprias convicções.