Torres de vigilância com inteligência artificial na fronteira dos Estados Unidos falham em detectar migrantes e não evitam mortes
Uma investigação inédita da MIT Technology Review revelou que mais de mil pessoas passaram por áreas monitoradas por torres de vigilância equipadas com inteligência artificial na fronteira sul dos Estados Unidos sem serem localizadas pelas autoridades e, posteriormente, morreram nessas regiões. O levantamento expôs falhas sistemáticas em uma estrutura de segurança que recebeu bilhões de dólares ao longo de 25 anos e que foi apresentada como uma promessa de proteção humanitária e combate à imigração irregular.
As torres, instaladas ao longo da fronteira com o México, utilizam algoritmos de inteligência artificial projetados para identificar automaticamente a presença de pessoas em movimento no deserto. A tecnologia foi desenvolvida com o objetivo de acelerar a resposta das autoridades diante de travessias e, em tese, salvar vidas ao permitir a localização rápida de migrantes em situação de risco. No entanto, os dados obtidos pela reportagem indicam que a promessa não se concretizou na prática.
De acordo com a investigação, que mapeou cerca de quatro mil locais onde restos humanos foram encontrados e os confrontou com informações de quase seiscentas torres de vigilância, pelo menos mil pessoas morreram em trechos que estavam sob monitoramento ativo. Algumas dessas mortes ocorreram em áreas vigiadas por torres de última geração equipadas com inteligência artificial, fabricadas pela empresa de defesa Anduril, que mantém contratos significativos com o governo norte-americano.
A pesquisa identificou três tipos principais de falhas no sistema. O primeiro diz respeito às próprias torres, com equipamentos defeituosos ou inoperantes em momentos críticos. O segundo envolve os algoritmos de detecção, que em diversos casos não foram capazes de identificar a presença de pessoas nas imagens captadas. O terceiro está ligado à ausência de resposta dos agentes de fronteira diante dos alertas emitidos pela tecnologia, o que evidencia uma falha humana mesmo quando o sistema automático funcionou corretamente.
Em um trecho específico do deserto próximo ao Novo México, apenas três torres da Anduril cobriam uma área onde dezoito pessoas morreram ao longo de 2024. Dessas, cinco estavam visíveis a partir da torre mais próxima do local onde um corpo foi encontrado. O caso foi relatado pela representante estadual Sarah Silva, que defendeu a realização de uma auditoria federal sobre as mortes ocorridas nas proximidades do muro virtual.
A investigação da MIT Technology Review foi conduzida ao longo de um ano em parceria com o jornal Times of San Diego e faz parte da série "Dying on Camera", que analisa o custo humano das falhas da tecnologia de vigilância na fronteira. Os repórteres entrevistaram mais de quarenta e cinco pessoas, entre ex-assessores da Casa Branca, nomeados presidenciais, agentes de patrulha de fronteira, médicos legistas, xerifes, voluntários humanitários e funcionários de empresas de tecnologia, para compreender a dimensão dos problemas relatados.
Para discutir os achados, o editor-chefe da MIT Technology Review, Mat Honan, promoveu uma conversa com o repórter sênior de inteligência artificial James O'Donnell e a repórter sênior de reportagens especiais e investigativas Eileen Guo. O debate, disponível para assinantes, aborda os limites da tecnologia de vigilância e a distância entre o discurso oficial de proteção e a realidade documentada nas áreas de fronteira.
Apesar das falhas documentadas, o governo dos Estados Unidos pretende investir mais um bilhão de dólares para triplicar o tamanho do muro virtual até 2034. A Anduril, principal fornecedora das torres mais recentes, está posicionada para se beneficiar diretamente desse novo aporte de recursos federais. O investimento ocorre mesmo diante das evidências de que o sistema apresenta problemas estruturais que comprometem sua função mais básica, segundo a própria definição divulgada em comunicados oficiais pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, que descreve as torres como instrumentos para identificar e localizar migrantes em situação irregular.
Os autores da investigação destacam que os números encontrados representam apenas os casos que deixaram algum tipo de rastro, já que não é possível contabilizar quantas pessoas atravessam sem serem detectadas ou quantos corpos permanecem sem ser encontrados. A crise humanitária revelada, portanto, é ainda mais ampla do que os dados disponíveis permitem concluir.
O conjunto de reportagens inclui ainda um mapeamento detalhado da localização das mortes e quatro sugestões de medidas que poderiam ser adotadas pela Alfândega e Proteção de Fronteiras para reduzir as falhas identificadas. Entre elas estão a revisão dos contratos com fornecedores de tecnologia, a melhoria da manutenção dos equipamentos, a auditoria dos algoritmos de detecção e o treinamento mais rigoroso dos agentes responsáveis por responder aos alertas gerados pelo sistema.