Calculadora de bobina e fax: memória de banco põe em dúvida o medo de perder o emprego para as máquinas
O colunista Luiz Henrique Matos resgatou nesta sexta-feira a própria trajetória profissional em um banco de São Paulo para colocar em debate uma pergunta que contraria o discurso dominante sobre automação: e se a máquina não roubar o seu emprego? A reflexão parte de uma experiência vivida durante a adolescência do autor, em uma época em que a rotina bancária dependia inteiramente do trabalho manual dos funcionários, sem qualquer recurso digital de apoio.
O ponto de partida da coluna é a lembrança do período em que ele atuou como office boy, o auxiliar encarregado de fazer entregas dentro e fora da agência. Segundo relata, a função exigia eficiência na distribuição de envelopes e jornais, além de habilidades que hoje parecem distantes do ambiente corporativo, como a destreza necessária para trocar os galões de água do escritório. Cada tarefa era executada sem auxílio de qualquer sistema informatizado.
Há ainda um detalhe curioso dessa fase inicial de carreira: a precisão no corte das mensagens de fax, os documentos impressos que chegavam pela transmissão telefônica, também foi destacada como uma competência relevante. O desempenho nessas atribuições, aparentemente simples, acabou rendendo frutos concretos. Em reconhecimento ao trabalho bem executado, o então adolescente foi promovido e assumiu a função de caixa em uma das agências do banco.
A experiência no balcão, porém, mostrou um ambiente bem mais desafiador do que as entregas e tarefas de apoio. Como conta o colunista, a chance de cometer erros na nova função era grande, e o suporte tecnológico disponível era mínimo. A ferramenta mais avançada que os funcionários tinham à disposição para ajudar nos cálculos era uma calculadora com bobina de papel, equipamento que imprimia as operações em uma fita contínua de papel para conferência posterior.
É justamente esse contraste entre a simplicidade das ferramentas da época e a realidade atual de sistemas automatizados que sustenta a provocação central da coluna. Enquanto o debate contemporâneo costuma girar em torno do medo de que máquinas e inteligências artificiais ocupem posições antes exercidas por pessoas, o título do texto sugere a possibilidade inversa: que a substituição anunciada talvez não se concretize da forma como se imagina.
A memória pessoal serve, assim, de fio condutor para uma discussão mais ampla sobre as relações entre trabalho humano e tecnologia. A trajetória narrada mostra um funcionário que começou carregando galões, entregando correspondências e cortando mensagens de fax até chegar ao posto de caixa, exercendo com competência atividades que hoje poderiam ser vistas como alvo natural da automação, mas que naquele contexto exigiam habilidade, atenção e dedicação.
Ao encerrar o relato, a coluna deixa no ar o questionamento que nomeia o texto. A história do jovem que era promovido por trocar galões com destreza e operar uma simples calculadora de bobina de papel convida o leitor a olhar com mais nuances para as previsões sobre o futuro do mercado de trabalho, ponderando que o destino das ocupações diante das máquinas pode ser menos traumático do que o temor generalizado costuma anunciar.