Julgamento da Huawei nos EUA começa com acusações de fraude, roubo de tecnologia e espionagem
A Huawei, uma das principais empresas de tecnologia da China, começou a ser julgada nesta quarta-feira (9), em Nova York, sob acusações de conspiração criminosa, roubo de tecnologia e fraudes financeiras. Promotores federais dos Estados Unidos afirmaram em tribunal que a empresa atuou como uma verdadeira organização criminosa, dedicada a furtar segredos comerciais norte-americanos e a obter vantagens indevidas no setor de telecomunicações. A companhia, sediada na cidade chinesa de Shenzhen, se declarou inocente de todas as catorze acusações que pesam contra ela.
Entre os crimes listados pela promotoria estão fraude bancária, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro, obstrução de justiça e violação das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos ao Irã. Segundo os promotores, as práticas ilegais atribuídas à gigante chinesa se estenderam por um longo período, com atividades criminosas supostamente ocorridas entre 1999 e 2020. Além das questões financeiras, o governo norte-americano também acusa a empresa de ter ajudado o Irã a vigiar sua própria população, um ponto que eleva a dimensão política do caso.
Parte central das acusações envolve a relação entre a Huawei e uma empresa chamada Skycom, que operava no Irã e funcionava, na prática, como subsidiária do grupo chinês. As investigações que deram origem ao processo se basearam, em parte, em reportagens publicadas em 2012 e 2013 que revelaram os laços estreitos entre as duas companhias. Os promotores sustentam que a Huawei mentiu a bancos internacionais sobre seus negócios no Irã, levando as instituições financeiras a processarem transações em dólares de forma involuntária, em desacordo com as regras de sanções norte-americanas.
A defesa da empresa rebateu as acusações logo na abertura dos trabalhos. Os advogados argumentaram que não existe evidência de que a Huawei soubesse que as movimentações financeiras em dólares violariam a legislação de sanções dos Estados Unidos, e que a companhia poderia ter conduzido as operações de outra maneira se tivesse essa intenção. A empresa nega qualquer irregularidade e reafirmou sua posição de inocência diante de todas as denúncias apresentadas pela justiça norte-americana.
O julgamento é o desdobramento de um embate judicial que se arrasta há anos. O caso ganhou repercussão mundial em 2018, quando a diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, foi presa em Vancouver, no Canadá, a pedido das autoridades norte-americanas. A prisão desencadeou uma grave crise diplomática envolvendo os Estados Unidos, a China e o Canadá, transformando a companhia em peça central da disputa comercial e tecnológica entre as duas maiores economias do mundo.
As consequências do processo podem ser significativas. Uma eventual condenação nas acusações relacionadas ao Irã fortaleceria os argumentos utilizados por Washington para ter colocado a Huawei, em 2019, em uma lista de restrições comerciais dos Estados Unidos, medida tomada sob a alegação de que a conduta criminosa da empresa ameaçava a segurança nacional. As denúncias foram apresentadas durante a primeira administração Trump, que também adotou medidas para limitar o uso de equipamentos da fabricante chinesa em solo norte-americano e pressionou outros países a retirar a marca de suas redes de telecomunicações.
O argumento central do governo norte-americano, ao longo de todo o conflito, é o de que a China poderia usar os equipamentos da Huawei para fins de espionagem. É esse temor que ancora tanto o processo criminal quanto as restrições comerciais impostas à empresa ao longo dos últimos anos. Agora, cabe ao tribunal de Nova York decidir, com base nas provas apresentadas pelas duas partes, se as graves acusações feitas pela promotoria se sustentam.
O desenrolar do julgamento será acompanhado de perto por governos, empresas e investidores ao redor do mundo, uma vez que o resultado pode redefinir a posição da Huawei no mercado global de tecnologia e telecomunicações. Enquanto os promotores buscam comprovar que a companhia operou de forma criminosa por mais de duas décadas, a defesa insiste que se trata de um caso construído sobre interpretações equivocadas de regras comerciais. O veredito deverá encerrar um dos capítulos mais tensos da história recente da indústria tecnológica mundial.