Google admite queda na qualidade das buscas na Europa após mudanças para evitar multa da União Europeia
O Google alertou que a qualidade dos seus resultados de busca tende a cair na Europa depois que a empresa remodelou o funcionamento dos seus serviços na região em uma tentativa de evitar uma nova multa antitruste da União Europeia. A admissão da companhia, controlada pela Alphabet, chega em meio a pressões regulatórias intensas sobre o funcionamento do seu mecanismo de pesquisa no continente. A informação é da agência de notícias Reuters, com reportagem de Foo Yun Chee.
A mudança está diretamente ligada à política de abuso de reputação de sites, adotada pela empresa e alvo de fortes reclamações de editores de conteúdo. Foram justamente essas queixas que colocaram a gigante de tecnologia na mira dos reguladores europeus, com risco concreto de aplicação de uma sanção por práticas anticoncorrenciais. Para tentar reverter o cenário, a companhia optou por alterar as regras que orientam a classificação das páginas nos resultados de pesquisa.
A política em questão visava combater uma prática conhecida como otimização parasitária de busca, na qual páginas de terceiros são publicadas dentro de um site para se aprovechar indevidamente dos sinais de reputação do domínio anfitrião e, assim, manipular as posições alcançadas nas buscas. O mecanismo, embora criado para conter esse tipo de abuso, acabou gerando efeitos colaterais que incomodaram o setor editorial europeu.
Segundo o monitoramento conduzido pelas autoridades da União Europeia, a política de spam do Google rebaixava sites de organizações de notícias e outros editores nos resultados de pesquisa sempre que essas páginas incluíam conteúdo produzido por parceiros comerciais. Ou seja, veículos que realizavam colaborações com anunciantes ou parceiros de negócios viam o posicionamento do seu material penalizado, o que reduzia o alcance e a visibilidade do trabalho jornalístico.
Como resposta às preocupações levantadas pelo bloco europeu, o Google anunciou que, a partir de 30 de agosto, ações manuais de rebaixamento de sites deixariam de ser aplicadas aos usuários localizados nos 27 países que integram a União Europeia, além de Islândia, Noruega e Liechtenstein, conjunto que forma a chamada Área Econômica Europeia. É exatamente essa flexibilização que, segundo a própria empresa, pode resultar em uma experiência de busca de menor qualidade na região.
A companhia deixou claro, no entanto, que a política permanece inalterada para os usuários do restante do mundo. Na prática, o rebaixamento de páginas que violem as regras de reputação de sites continua valendo integralmente fora dos limites da Área Econômica Europeia, o que cria uma diferença no funcionamento do serviço conforme a localização do usuário.
A reação de Bruxelas à medida foi positiva. O porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Regnier, declarou que o órgão acolhe a revogação da política, afirmando que ela penalizava injustamente editores e outros usuários comerciais do serviço de busca do Google. O posicionamento indica que a mudança foi bem recebida pelas autoridades responsáveis por fiscalizar as práticas das grandes plataformas digitais no bloco.
O episódio se insere em um histórico tenso entre o Google e os reguladores europeus. A empresa já acumula 9,71 bilhões de euros em multas desde 2017, resultado de várias infrações antitruste confirmadas na Europa, o que ajuda a explicar a pressa em adequar suas políticas de busca para tentar escapar de uma nova sanção bilionária.
Com a alteração, o Google busca equilibrar dois interesses difíceis de conciliar: atender às exigências regulatórias da União Europeia e preservar a qualidade dos resultados apresentados aos usuários. O alerta da própria empresa sobre a possível queda no padrão das buscas na região evidencia o custo desse ajuste, enquanto editores e organizações de notícias comemoram o fim de uma regra que, segundo as autoridades europeias, prejudicava injustamente quem produz conteúdo profissional na internet.