Ferramenta de IA da Flock para policiais permite buscas por descrições físicas em câmeras
A revista WIRED conseguiu reconstruir a partir do código enviado ao navegador de policiais a mais recente ferramenta de busca da Flock Safety, empresa conhecida por suas câmeras de leitura de placas de veículos. O sistema, chamado OS Investigate, utiliza inteligência artificial para monitorar simultaneamente várias câmeras em busca de alguém que corresponda a uma descrição escrita em linguagem natural.
Diferente do modelo tradicional da Flock, que se limitava a comparar placas de veículos fotografados com listas de carros procurados, a nova ferramenta inverte essa lógica. O policial não precisa mais de uma placa, um nome ou um crime específico para iniciar uma investigação. Basta fornecer um local, um intervalo de tempo e um padrão de comportamento para que o sistema retorne resultados considerados relevantes.
O código analisado pela WIRED revela que o software permite encadear buscas de veículos a consultas em registros policiais que filtram pessoas por sexo, raça, etnia, altura, peso, compleição física, cicatrizes, marcas e tatuagens. Entre os comandos pré-programados disponíveis na plataforma, há exemplos de buscas que solicitam registros compatíveis com descrições como "homem, aproximadamente 1,80 metro, camiseta preta com capuz, tatuagem no antebraço" em uma determinada região.
Além das descrições textuais, a ferramenta permite que o policial delimite os critérios de busca selecionando um raio de distância ou desenhando formas arbitrárias no mapa. Esse recurso amplia a capacidade de filtragem geográfica das investigações e facilita a análise de padrões de movimento em áreas específicas.
Para Andrew Guthrie Ferguson, professor de direito da Universidade George Washington, um sistema como esse era inevitável diante do volume de dados coletados. Segundo ele, para utilizar toda a informação acumulada, é necessário construir mecanismos de consulta, e para tornar isso acessível a policiais que não criariam ferramentas próprias, é preciso pré-programar o sistema com comandos em linguagem natural e fluxos automatizados de trabalho.
A revelação sobre o código da OS Investigate ocorre em um contexto de crescente debate sobre o uso de tecnologias de vigilância por agências policiais nos Estados Unidos. A Flock se tornou uma empresa amplamente presente em comunidades de todo o país, com câmeras instaladas em milhares de localidades que são utilizadas diariamente por policiais em investigações de crimes como roubos de veículos.
A possibilidade de realizar buscas por características físicas e comportamentais em redes de câmeras levanta questões sobre os limites da vigilância automatizada e sobre quais salvaguardas existem para evitar o uso indevido dessa tecnologia. A Flock já enfrentou críticas de organizações de defesa de direitos civis e pesquisadores que questionam a amplitude do sistema e a ausência, em muitos casos, de exigência de mandado judicial para acesso às gravações.
A análise do código feita pela WIRED expõe como a integração entre inteligência artificial, reconhecimento de imagem e bases de dados policiais pode transformar câmeras de trânsito em ferramentas de investigação baseadas em descrições subjetivas. A tecnologia, originalmente projetada para identificar placas de veículos, evoluiu para um sistema capaz de buscar pessoas a partir de характеристики fornecidas em texto simples.
A publicação do código analisado pela reportagem reforça a importância da transparência sobre o funcionamento de ferramentas de vigilância que dependem de inteligência artificial. À medida que essas plataformas se tornam mais sofisticadas e acessíveis, cresce a necessidade de discutir mecanismos de controle, auditoria e proteção da privacidade dos cidadãos que circulam por espaços monitorados.