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Custo de energia se torna o principal gargalo dos data centers de IA

01/09/2026
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A expansão da inteligência artificial esbarrou em um obstáculo que o mercado começou a detectar há poucos anos e que agora se confirma: o fornecimento de eletricidade. Os data centers, instalações que reúnem milhares de servidores para processar dados e alimentar sistemas de IA, demandam volumes crescentes de energia, e a conta desse consumo está chegando ao consumidor comum. O problema ganhou dimensão global e já provoca reações de governos, incluindo o Brasil, onde o Congresso está próximo de aprovar o Redata, programa de incentivos fiscais para atrair essas instalações ao país.

O caso mais claro do impacto no bolso está nos Estados Unidos, país que lidera a corrida da inteligência artificial. Nos últimos 12 meses, as contas médias de luz residenciais no país subiram 6,6%, quase o dobro da inflação, de 3,4%. Desde 2022, o aumento acumulado chega a 25%, contra uma inflação de 14,1% no período. O custo da eletricidade para residências cresceu mais do que para empresas, o que indica que o consumidor doméstico está arcando com parte da expansão da infraestrutura do setor.

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Os data centers não são novidade: existem há décadas. O ponto de inflexão ocorreu em 2022, com o lançamento do ChatGPT, assistente de inteligência artificial criado pela OpenAI que popularizou a chamada IA generativa, capaz de produzir textos, imagens e códigos a partir de comandos. O uso massivo dessa tecnologia multiplicou a demanda por processamento e, em consequência, por energia elétrica. Hoje operam cerca de 12 mil data centers no mundo, e a capacidade de processamento deve dobrar até 2030.

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Os números financeiros envolvidos são recordes. Amazon, Google, Meta e Microsoft, gigantes da tecnologia que disputam a liderança em inteligência artificial, constroem instalações gigantescas, conhecidas como data centers de hiperescala. O investimento apenas das 14 maiores empresas abertas do setor deve atingir 750 bilhões de dólares neste ano, contra 450 bilhões em 2026. A consultoria McKinsey estima que o gasto global com a construção dessas instalações pode alcançar 7 trilhões de dólares em 2030, o que configuraria o maior processo de investimento em infraestrutura em tempos de paz da história.

Apesar dos valores elevados, o gargalo principal do setor não é levantar capital, mas obter eletricidade em quantidade suficiente. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers consumiram 485 terawatts-hora em 2025, o equivalente a cerca de 1,5% do consumo mundial de eletricidade, com alta de 17% em relação ao ano anterior.

Para conter o temor de escalada nos preços, as empresas de tecnologia anunciaram parcerias e investimentos em geração elétrica, incluindo a reativação de usinas nucleares, como a de Three Mile Island, palco do pior acidente nuclear dos Estados Unidos. A Microsoft declarou que qualquer custo para atender seus data centers não seria repassado às comunidades. Já a Anthropic, empresa de inteligência artificial criadora do Claude, comprometeu-se, de forma vaga, a cobrir aumentos de preços da eletricidade enfrentados por consumidores por causa de suas instalações. As promessas, no entanto, não se confirmaram na prática: o repasse aos consumidores está ocorrendo.

A percepção de que a sociedade está cofinanciando a infraestrutura elétrica exigida por megaempresas tem gerado protestos e respostas governamentais. A Dinamarca aprovou neste mês mudança nas regras de conexão à rede elétrica e passou a priorizar residências, pequenas empresas e clientes já existentes, colocando novos data centers no fim da fila. Projetos em andamento correm o risco de ficar sem energia, e outros países europeus estudam medidas semelhantes.

Nos Estados Unidos, mais de 25 Estados já adotaram ou propuseram medidas para limitar, suspender ou fiscalizar com mais rigor novos empreendimentos do setor. Nova York impôs moratória de um ano na construção de instalações que demandem 50 megawatts ou mais. O Texas, um dos Estados mais favoráveis aos negócios no país, pausou a aprovação de novos projetos por causa dos riscos à estabilidade da rede elétrica local, já sobrecarregada.

O Brasil entra nesse debate no momento em que se aproxima da aprovação do Redata no Congresso. O programa concede às empresas isenção de PIS-Cofins, Imposto de Importação e IPI por cinco anos, condicionada à aplicação de 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno ou importados em pesquisa e inovação, além do uso de energia de fontes limpas e renováveis. O objetivo é atrair data centers que podem se transformar em negócio relevante para o país.

Há, porém, dificuldades específicas. O custo de energia no Brasil está entre os maiores do mundo e continua subindo. A oferta de geração solar e eólica é abundante, mas data centers exigem fornecimento contínuo, o que em boa parte do tempo só pode ser garantido pelas hidrelétricas, cuja capacidade de expansão é limitada e cujo suprimento já é disputado por clientes nacionais.

A discussão sobre energia envolve outro tema estratégico: a soberania digital, ou seja, a capacidade de processar e armazenar internamente informações sensíveis para o país, sem depender de terceiros. Trata-se de objetivo de segurança e desenvolvimento, mas que precisa ser equilibrado com os custos da expansão elétrica.

Para o editor da análise, o caminho é enfrentar os custos de forma transparente, monitorar os incentivos concedidos e mensurar periodicamente os resultados das políticas adotadas, uma prática rara no debate público brasileiro. A experiência internacional mostra que o problema não é hipotético: o consumo dos data centers já altera preços de eletricidade em economias consolidadas e gera respostas regulatórias em vários países. O Brasil tem oportunidade real de atrair investimentos do setor, mas o desenho das regras definirá se os benefícios superarão o custo pago pela sociedade.

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