Como a geração criada sob a influência da inteligência artificial está redesenhando a relação entre pais, filhos e tecnologia
A forma como as crianças se relacionam com a tecnologia mudou radicalmente em pouco mais de uma década, e a ascensão da inteligência artificial está acelerando esse processo. Um número crescente de pais que trabalham em grandes empresas de tecnologia passou a restringir o acesso dos filhos a dispositivos e redes sociais, numa reação que vai na contramão da cultura digital predominante. Esse movimento ganhou força com o livro "The Anxious Generation", de Jonathan Haidt, publicado em 2024, que ajudou a levar o debate sobre os efeitos da exposição precoce às telas para o centro da conversa pública.
O contraste entre as gerações de pais é marcante. Quando o primeiro filho nasceu, era comum criar contas de e-mail e redes sociais em nome da criança e compartilhar publicamente cada etapa do crescimento. Fotos eram publicadas em diversas plataformas, construindo uma pegada digital antes mesmo de a criança aprender a andar. Com o segundo filho, muitos pais adotaram postura oposta, optando por preservar a privacidade e evitar que rostos e datas de nascimento alimentassem algoritmos de recomendação.
Essa mudança de comportamento foi alimentada por preocupações concretas. Profissionais da área pediátrica relatam aumento nos casos de crianças e adolescentes atendidos com problemas ligados à dismorfia corporal, que é a insatisfação intensa com a aparência física, e ao cyberbullying, termo usado para descrever assédio praticado em ambientes digitais. A combinação entre redes sociais e smartphones contribuiu para agravar quadros de ansiedade e distorção da autoimagem entre os mais jovens.
O reflexo disso aparece nas decisões familiares do dia a dia. Muitos pais passaram a substituir smartphones por telefones simples, conhecidos como flip phones, e a proibir o acesso a plataformas como o TikTok. Entre profissionais de grandes empresas de tecnologia, é crescente a prática de manter os próprios filhos afastados do mundo digital, com dispositivos bloqueados e ausência total em redes sociais. Até mesmo o fundador de uma das maiores redes sociais do mundo evita publicar o rosto dos filhos em suas próprias plataformas, segundo relatos da reportagem.
Esse ceticismo em relação à tecnologia deixou de ser uma corrente minoritária e se transformou em um movimento amplo. No ano passado, a Austrália se tornou o primeiro país a aprovar uma proibição de redes sociais para menores de 16 anos. Outros países, como Áustria e Indonésia, anunciaram medidas semelhantes. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte manteve uma lei de verificação de idade no Texas que funciona, na prática, como uma restrição ao acesso de adolescentes, e diversos distritos escolares começaram a substituir dispositivos educacionais como iPads e Chromebooks por livros físicos.
Entre os próprios adolescentes, há sinais de mudança. Um dos objetos mais desejados pela chamada Geração Alfa, formada por pessoas nascidas a partir de 2010, é um antigo Walkman da Sony, dispositivo de áudio portátil que marcou os anos 1980. O interesse por tecnologias de décadas anteriores revela uma busca por experiências mais simples e menos conectadas, em meio a uma infância cada vez mais imersa em telas e algoritmos.
Apesar dessa tendência, não é possível ignorar a presença da inteligência artificial no cotidiano. A recomendação que ganha força entre educadores e especialistas é preparar as crianças para o mundo real que foi efetivamente construído, e não para um cenário idealizado. A tecnologia permeia praticamente todos os aspectos da vida moderna, e excluí-la por completo se mostrou inviável para a maioria das famílias.
A complexidade do tema aparece nas respostas de adolescentes ouvidos por uma publicação voltada ao público jovem. Muitos demonstraram percepções maduras e detalhadas sobre o impacto da inteligência artificial em suas vidas, abordando desde o uso de chatbots e assistentes virtuais até preocupações com privacidade e autonomia. O contraste entre a postura protetora dos pais e a curiosidade tecnológica dos filhos evidencia um diálogo que ainda está em construção.
Na prática, algumas famílias têm buscado um meio-termo. Depois de anos restringindo o acesso, alguns pais passaram a liberar gradualmente o uso de smartphones e relógios inteligentes conforme os filhos crescem. Esses dispositivos abriram novas possibilidades de社交, permitindo amizades que transitam entre o ambiente digital e o físico, e ampliando a autonomia para explorar a cidade além do bairro. Ao mesmo tempo, continuam os cuidados com a exposição pública de imagens e dados pessoais.
O equilíbrio entre proteção e independência segue como um dos maiores desafios da parentalidade na era da inteligência artificial. Mais do que impedir o contato com a tecnologia, a tarefa de criar filhos neste contexto exige acompanhar de perto as transformações em curso e preparar as novas gerações para conviver, de forma crítica e consciente, com um mundo cada vez mais mediado por algoritmos e sistemas automatizados.