Um relatório inédito do Banco Mundial, intitulado A Promessa da Inteligência Artificial, sustenta que a inteligência artificial tem potencial para permitir que países em desenvolvimento comprimam em uma década avanços econômicos e sociais que, pelo ritmo atual, levariam cerca de cem anos para se concretizar. A condição central para que essa aceleração ocorra, segundo o documento, é que essas nações resolvam previamente três gargalos estruturais: oferta de energia, conectividade e qualificação profissional. O estudo chega em um momento de rápida expansão da IA generativa, tecnologia capaz de gerar texto, imagens e código a partir de comandos, e que já reconfigura mercados de trabalho em escala global.
O Banco Mundial, instituição financeira internacional que concede empréstimos e assistência técnica a países em desenvolvimento, enxerga na IA uma ferramenta capaz de reduzir assimetrias históricas entre economias ricas e pobres. Para países como o Brasil, a análise sugere que existe uma janela concreta de oportunidade para saltar etapas no desenvolvimento tecnológico, aproveitando a maturidade crescente dessas ferramentas sem precisar percorrer todas as fases pelas quais economias avançadas passaram ao longo de décadas.
Um dos achados mais expressivos do relatório diz respeito ao impacto diferenciado da automação gerada pela IA generativa conforme o nível de renda de cada país. Empregos em nações de renda elevada estão mais de três vezes mais expostos ao risco de automação em comparação com posições em países de renda média ou baixa. Essa constatação inverte, em parte, o senso comum de que a automação ameaçaria primeiro economias menos desenvolvidas. Na prática, a maior concentração de funções cognitivas, administrativas e de serviços estruturados em países ricos torna esses mercados particularmente sensíveis à substituição por sistemas de IA.
Para economias emergentes, esse descompasso abre um intervalo estratégico. Como as ocupações mais comuns nesses países ainda envolvem tarefas físicas, manuais e operacionais, menos suscetíveis à automação por IA generativa, há um prazo adicional para que governos e empresas preparem sua força de trabalho para uma transição tecnológica que, inevitavelmente, também chegará a esses mercados. O relatório indica que esse tempo deve ser usado para investir em educação, requalificação e infraestrutura digital, em vez de ser tratado como moratória.
As três lacunas identificadas pelo Banco Mundial como pré-requisitos para a aceleração não são triviais. A oferta de energia é indispensável porque data centers e sistemas de IA exigem enorme capacidade de processamento, com consumo elétrico elevado. A conectividade, por sua vez, determina a velocidade e a amplitude com que as ferramentas de IA podem chegar a usuários e empresas. Já a qualificação profissional garante que a população consiga não apenas operar as novas tecnologias, mas também desenvolvê-las, adaptá-las e extrair valor econômico delas.
O relatório também pondera que a adoção da IA por si só não garante desenvolvimento. Sem políticas públicas orientadas para distribuir os ganhos de produtividade, a tecnologia pode aprofundar desigualdades entre regiões, setores e grupos sociais. Países que investirem em regulamentação adequada, capacitação de trabalhadores e acesso democrático às ferramentas terão maior probabilidade de transformar a IA em vetor de crescimento inclusivo.
A menção específica ao Brasil no contexto do relatório reforça o posicionamento do país como relevante no debate sobre IA no mundo em desenvolvimento. O país possui um ecossistema de tecnologia em expansão, com presença de grandes empresas globais e um setor de startups ativo, mas ainda enfrenta desafios significativos em conectividade em áreas remotas e em qualificação de mão de obra para funções de maior valor agregado.
A constatação de que empregos em países ricos estão mais expostos à automação não significa que economias emergentes estejam imunes. O relatório do Banco Mundial sugere que o efeito será defasado no tempo, mas não evitável. Sectors como atendimento ao cliente, processamento de dados e serviços administrativos já começam a sentir a pressão da IA generativa mesmo em países de renda média, o que reforça a urgência de preparação.
A pesquisa do Banco Mundial contribui para um debate que ganha corpo em organismos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. A convergência dessas instituições em torno da necessidade de políticas ativas de transição sugere que a janela de oportunidade identificada para países em desenvolvimento é reconhecida como um fenômeno global, e não apenas uma projeção isolada.
Para que o Brasil e demais economias emergentes aproveitem o potencial apontado pelo Banco Mundial, o relatório aponta que decisões tomadas nos próximos anos serão determinantes. Investimentos em infraestrutura de energia e telecomunicações, reformas educacionais e programas de requalificação profissional surgem como variáveis críticas para que a aceleração prometida pela IA se materialize de fato em ganhos econômicos e sociais mensuráveis.