O ciclo de investimentos em inteligência artificial transformou São Francisco em uma cidade economicamente irreconhecível, onde salários que antes garantiam conforto financeiro — como US$180 mil anuais — já não são suficientes para custear moradia e despesas básicas. O fenômeno está criando uma divisão sem precedentes dentro do próprio setor de tecnologia: profissionais que não trabalham em empresas de IA de ponta estão sendo empurrados para fora do mercado imobiliário pela nova geração de milionários formada por funcionários de companhias como OpenAI e Anthropic.
OpenAI é a empresa responsável pelo ChatGPT e pelos modelos de linguagem GPT. Anthropic é a criadora do assistente de IA Claude. Ambas concentram some de seus funcionários em São Francisco e regiões próximas, e a valorização acelerada de suas ações está redirecionando o poder de compra na cidade.
O jornal The New York Times relatou o caso de Katrine Razniak, recrutadora do LinkedIn — plataforma profissional pertencente à Microsoft —, e seu parceiro Adam Woodbury, engenheiro de software. Eles moram em São Francisco há cinco anos e ganham, respectivamente, US$180 mil e US$185 mil por ano. Mesmo com essa renda conjunta superior a US$365 mil anuais, o casal não conseguiu encontrar um apartamento de um quarto dentro de um orçamento de US$5 mil mensais.
Após meses de busca, eles visitaram um imóvel cobrado a US$5.200 por mês. Uma hora depois da visitação, a lista de interessados já contava com 30 candidatos. A frustração os levou a considerar a mudança para outro estado, onde seus salários lhes permitiriam um padrão de vida equivalente ao da classe alta.
Comprar um imóvel também está fora de alcance. O preço médio de uma casa em São Francisco é de US$1,7 milhão, mais de três vezes a média nacional estadunidense de US$450 mil. Os aluguéis na cidade são os mais caros dos Estados Unidos, superando até mesmo os de Nova York. Imóveis considerados acessíveis, abaixo de US$5 mil mensais, costumam ser alugados em questão de segundos, segundo relatos de moradores.
O motor dessa escalada de preços está diretamente ligado à valorização das empresas de IA. Desde que a OpenAI atingiu uma avaliação de US$500 bilhões no ano passado, funcionários da empresa passaram a vender ações e investir em imóveis, o que impulsionou ainda mais os preços das moradias na região. A empresa, comandada por Sam Altman, hoje é avaliada em US$852 bilhões.
A Anthropic, por sua vez, ambiciona alcançar uma avaliação de US$900 bilhões. Para dimensionar esses números, quando a Uber abriu seu capital em 2019, seu valor de mercado era de US$82 bilhões — cerca de um décimo das cifras que as empresas de IA estão atingindo.
As ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês para Initial Public Offering, o processo de abertura de capital de uma empresa na bolsa de valores) previstas para OpenAI, Anthropic e a SpaceX — empresa aeroespacial de Elon Musk — devem criar até 20 novos bilionários, segundo estimativas. Esse acúmulo acelerado de riqueza está comprimindo a chamada classe média com conhecimento tecnológico, formada por desenvolvedores, analistas e profissionais de suporte que tradicionalmente compunham o ecossistema de inovação da região.
O problema não se limita ao mercado imobiliário. O custo de vida em São Francisco é 65,6% mais alto do que a média do restante dos Estados Unidos, de acordo com dados do Índice de Custo de Vida. Katrine Razniak relatou que suas despesas mensais aumentaram em US$1 mil sem que houvesse qualquer mudança em seu estilo de vida. Ela e seus amigos passaram a substituir refeições em restaurantes por comida caseira.
O salário médio na cidade de fato aumentou nos últimos seis anos, passando de US$153 mil para US$196 mil. Esse crescimento, no entanto, é insuficiente diante da velocidade com que os custos se elevam, especialmente no setor habitacional. A oferta de novas moradias é baixa, a demanda cresce sem parar e o estoque de imóveis acessíveis diminui a cada mês.
A crise habitacional de São Francisco reflete um problema global. Países como Canadá, Alemanha, México, China e o próprio Estados Unidos enfrentam dificuldades semelhantes para equilibrar a oferta de moradias com a crescente demanda. Em São Francisco, porém, a concentração de capital gerada pelo setor de IA tornou a situação particularmente aguda.
A consequência direta é que trabalhar com tecnologia deixou de ser garantia de prosperidade na cidade. Profissionais qualificados que não estão vinculados a empresas de IA estão perdendo poder de compra frente a colegas que acumulam ações de empresas avaliadas em centenas de bilhões de dólares. A divisão não é mais entre quem trabalha com tecnologia e quem não trabalha, mas entre quem está dentro do ciclo de valorização da IA e quem está fora.
O cenário levanta questões concretas sobre o futuro do mercado de trabalho em tecnologia. Se a base de profissionais que sustenta a infraestrutura de inovação da região não consegue mais morar nela, o ecossistema que tornou São Francisco o epicentro mundial da tecnologia pode perder sua capacidade de reter talentos.
Por enquanto, a tendência aponta para uma cidade cada vez mais seletiva, acessível apenas a uma faixa restrita de trabalhadores do setor de IA. Para os demais profissionais de tecnologia, a equação entre salário e custo de vida está se tornando insustentável — e a mudança para outras regiões passa a ser uma decisão econômica, não apenas uma escolha de estilo de vida.