Governos de países envolvidos em conflitos internacionais estão usando vídeos gerados por inteligência artificial como instrumento de propaganda e desinformação em larga escala. O fenômeno, que envolve nações como Irã, Estados Unidos, Israel e Rússia, representa uma nova frente de batalha travada nas redes sociais, onde ataques militares fictícios, cidades imaginárias em chamas e líderes políticos transformados em personagens satíricos circulam livremente e alcançam milhões de pessoas.
Essa prática recebeu um nome: slopaganda. O termo combina a palavra em inglês slop, usada para descrever conteúdos de baixa qualidade produzidos por inteligência artificial, com propaganda. A ideia captura a essência de um fenômeno em que o volume e a velocidade da produção importam mais do que a veracidade das informações. O conceito de AI slop já era usado para definir vídeos engraçados, toscos ou sem sentido gerados por modelos de IA, mas que possuem alto poder de viralização.
No contexto atual do confronto direto entre Irã, Estados Unidos e Israel, tensões militares e diplomáticas passaram a ser retratadas por meio de vídeos satíricos, cenas fictícias e até animações em estilo de brinquedos de montar. O objetivo declarado é controlar narrativas, confundir populações e projetar uma imagem de força e domínio que nem sempre corresponde à realidade nos campos de batalha.
As redes sociais estão inundadas de conteúdos inteiramente fabricados. Ataques militares que nunca ocorreram são apresentados com realismo. Cidades inimigas aparecem em destroços. Líderes ocidentais são ridicularizados ou humilhados em produções pensadas para gerar uma sensação de controle e vitória, mesmo que imaginária. O avanço dos geradores de vídeo por inteligência artificial facilitou enormemente esse processo. Hoje, cenários fictícios complexos podem ser criados em poucos minutos.
O presidente norte-americano Donald Trump é um dos alvos frequentes dessas produções. Vídeos gerados por IA o transformam em personagem de animações que rapidamente se espalham como memes globais e, em muitos casos, são republicados por canais oficiais. Um vídeo particularmente viral, criado fora do governo americano mas compartilhado por Trump, transformava a região de Gaza em um resort virtual, imaginando um futuro alternativo para o território.
A Rússia também recorre à mesma tecnologia em meio à sua guerra contra a Ucrânia. O governo russo tem fabricado vídeos que mostram rendições e derrotas do exército ucraniano que nunca aconteceram. Nessas produções não há limite para a criatividade algorítmica: o que importa é o impacto emocional e a capacidade de viralizar.
Apesar da sofisticação tecnológica, a estratégia em si não é nova. O uso de animação como ferramenta de propaganda política e militar remonta ao período anterior à Segunda Guerra Mundial. Foi, contudo, durante aquele conflito que esse tipo de produção passou a ser empregado de forma massiva e estratégica por governos. Estados Unidos, Alemanha nazista, Japão imperial e União Soviética investiram pesadamente em animações para manipular emoções, mobilizar massas e fabricar inimigos.
Os Estados Unidos chegaram a contratar estúdios como Walt Disney e Warner Bros. para produzir animações contra o nazismo, o fascismo e o militarismo japonês. No Japão, longas-metragens animados glorificavam os exércitos imperiais. Durante a Guerra Fria, personagens de desenhos ajudaram a difundir ideologias rivais pelo mundo. A propaganda política, entre arquivos históricos e a nova estética algorítmica, continua se adaptando às linguagens da cultura de massa.
A diferença agora está na escala, na velocidade e no custo. Com a inteligência artificial, produções que antes exigiam estúdios inteiros e semanas de trabalho podem ser geradas em minutos, por uma fração do investimento. A distribuição, antes limitada a cinemas e emissoras de televisão, hoje acontece instantaneamente em plataformas globais com bilhões de usuários.
Para Matheus Soares, coordenador do Aláfia Lab, laboratório brasileiro dedicado a pesquisar a relação entre tecnologias digitais, comunicação, política e sociedade, esses vídeos representam uma transformação profunda na lógica dos conflitos contemporâneos. Ele afirma que propagandas de Estados em contextos de guerra sempre existiram, mas que nos últimos anos essas disputas passaram a ser travadas não apenas nos territórios físicos, mas principalmente nas redes sociais.
Segundo o pesquisador, governos tentam desmoralizar o adversário e, simultaneamente, confundir o debate público para conquistar apoio popular às suas causas. A inteligência artificial surge nesse cenário como uma camada adicional da comunicação política, facilitando a criação de vídeos e animações desenhados para viralizar e engajar. Soares alerta que é justamente por meio do engajamento de conteúdos aparentemente fofos, engraçados e inofensivos que governos conseguem burlar as políticas de moderação das plataformas e distribuir suas narrativas globalmente.
Esses vídeos apostam no impacto emocional direto. O objetivo é tocar o sentimento das pessoas, provocando raiva e ódio em relação ao inimigo, mas também orgulho pela causa defendida. Sem compromisso com a verdade, as produções transformam os horrores da guerra em um produto consumível, leve e compartilhável, que suaviza a violência e infantiliza o adversário.
O resultado é um cenário em que a credibilidade das informações vale menos do que um clique. A ausência de verdade, revestida de humor e entretenimento, corre o risco de ser interpretada como apenas uma brincadeira inofensiva. Especialistas ouvidos na reportagem apontam que o fenômeno da slopaganda veio para ficar e representa uma ameaça concreta à capacidade de sociedades inteiras de distinguir fato real de ficção em momentos de crise e tensão internacional.