Queda histórica da IBM na bolsa expõe os efeitos colaterais da corrida por inteligência artificial
As ações da IBM despencaram 25% na bolsa de Nova York nesta terça-feira, registrando a maior queda diária da empresa desde 1972. O tombo veio após o CEO Arvind Krishna admitir, em carta aos investidores, que a companhia não previu a magnitude da repriorização dos investimentos de capital que vem sendo feita por grandes corporações para montar infraestruturas dedicadas à inteligência artificial.
Segundo Krishna, nas últimas semanas de junho os clientes da IBM redirecionaram seus gastos trimestrais para a compra de servidores, armazenamento e memória, com o objetivo de garantir infraestrutura com oferta limitada antes de aumentos de preços esperados. Diversos negócios considerados certos não foram concluídos dentro do planejado, o que comprometeu a projeção financeira da empresa para o trimestre.
O movimento reflete uma transformação mais ampla nos departamentos de tecnologia ao redor do mundo. O dinheiro que seria destinado a sistemas e softwares corporativos da IBM está sendo desviado para a aquisição de hardware, especialmente servidores e chips fundamentais para rodar modelos de IA. Setores como o de servidores já enfrentam escassez severa diante da procura crescente, o que torna a corrida por esses componentes ainda mais acirrada entre as grandes empresas.
Além do hardware, a segurança cibernética também está consumindo boa parte da verba de tecnologia das companhias. Com a chegada de modelos de IA mais avançados, como o Mythos da Anthropic, as empresas passaram a reforçar suas defesas digitais. Esses sistemas são capazes de mapear falhas em softwares com rapidez inédita, entregando uma vantagem técnica a hackers e obrigando investimentos pesados em proteção.
O impacto financeiro para a IBM é expressivo. A empresa projeta um aumento de receita de apenas 1% no segundo trimestre, totalizando cerca de US$ 17,2 bilhões, o que representa o menor ritmo de crescimento em mais de um ano. O número ficou abaixo da expectativa dos analistas de mercado, que projetavam US$ 17,8 bilhões. Os dados oficiais da companhia serão divulgados no dia 22 de julho. Com a queda expressiva das ações, a IBM pode perder até US$ 70 bilhões em valor de mercado, estando atualmente avaliada em torno de US$ 272,7 bilhões.
O cenário provocou forte preocupação em Wall Street quanto ao futuro do setor de software como um todo. O segmento já enfrentava pressão com o avanço de inteligências artificiais capazes de escrever códigos e automatizar tarefas, e agora soma mais um motivo de cautela. Refletindo esse pessimismo, gigantes como a Microsoft também registraram quedas nos papéis entre 2% e 5% na mesma terça-feira.
Para tentar conter os danos junto aos investidores, a IBM destacou seus investimentos em computação quântica, uma área da computação que utiliza princípios da física quântica para realizar processamento de dados em escala exponencialmente maior que os computadores tradicionais. A companhia já destinou mais de US$ 10 bilhões para construir seu primeiro computador quântico em larga escala até 2029, projeto que conta com forte apoio financeiro do governo dos Estados Unidos. A empresa também mencionou a expansão de parcerias no próprio mercado de inteligência artificial, incluindo acordos com a OpenAI.
Apesar da estratégia de comunicação, analistas ponderam que essas frentes ainda estão em estágios iniciais e não devem compensar o rombo bilionário no curto prazo. A situação evidencia um efeito colateral inesperado da febre da inteligência artificial: enquanto empresas de infraestrutura e fabricantes de chips se beneficiam da corrida por capacidade computacional, gigantes tradicionais de software podem ser prejudicados justamente pela mudança nas prioridades de investimento de seus próprios clientes.
A fala de Krishna chama ainda mais atenção porque, no final do ano passado, o próprio executivo havia criticado publicamente os gastos com inteligência artificial. A magnitude da repriorização acabou surpreendendo até quem acompanhava o setor de perto, e os próximos balanços devem mostrar se o episódio representa um solavanco pontual ou o início de uma recomposição mais profunda no mercado corporativo de tecnologia.