A expansão digital brasileira atingiu um patamar inédito ao registrar 502 milhões de dispositivos em operação no país, abrangendo computadores, notebooks, tablets e smartphones. Segundo a 36ª Pesquisa Anual do FGVcia, iniciativa que monitora o uso de tecnologia e o mercado de informática, essa marca resulta em uma média de 2,4 aparelhos por habitante. O protagonismo desse cenário é dos smartphones, que somam 272 milhões de unidades em uso. Esse número isolado indica uma média de 1,3 celular inteligente para cada cidadão, evidenciando uma densidade tecnológica que supera a própria população nacional.
Apesar da ampla presença de hardware, a integração efetiva de inteligência artificial nas rotinas corporativas ainda apresenta obstáculos significativos. A pesquisa, que investigou o comportamento das organizações brasileiras, aponta que, embora 80% das empresas afirmem utilizar tecnologias de inteligência artificial, uma parcela expressiva de 75% declara aplicá-las de modo extremamente limitado. A inteligência artificial, em sua vertente generativa — sistemas capazes de criar conteúdos, textos, códigos e imagens com base em padrões aprendidos durante treinamentos extensivos —, ainda busca uma aplicação prática que vá além do uso superficial ou experimental nos ambientes de trabalho.
No ecossistema corporativo brasileiro de inteligência artificial generativa, o Microsoft Copilot lidera a preferência, detendo 40% de participação entre as empresas consultadas. Em seguida, aparecem o ChatGPT, com 32%, e o Google Gemini, com 20%. O professor Fernando Meirelles, coordenador do levantamento, caracteriza a situação atual como uma etapa de baixa aderência real. O fenômeno sugere que, embora o investimento nas ferramentas seja evidente, o processo de assimilação técnica e cultural, necessário para que essas soluções transformem a produtividade e a estratégia de negócio, ainda encontra-se em fase inicial e de maturação.
Um exemplo notável dessa desconexão entre potencial tecnológico e prática administrativa é o departamento financeiro. Conforme o estudo, 90% das análises baseadas em inteligência analítica — que envolve a exploração de dados para identificar tendências e apoiar decisões — continuam sendo processadas por meio de planilhas eletrônicas convencionais. Isso ocorre mesmo com a ampla disponibilidade de ferramentas modernas voltadas para a inteligência de negócios. A dependência de softwares legados ou de sistemas mais tradicionais, como o uso recorrente de Excel e do Teams em reuniões híbridas, destaca a persistência de fluxos de trabalho que ainda não foram plenamente remodelados pelas inovações de IA.
O investimento das empresas em tecnologia da informação reflete uma trajetória de crescimento constante nas últimas três décadas. O percentual da receita destinado a TI saltou de 1,3% em 1988 para 10% no ano de 2024. A previsão é de que esse indicador ultrapasse a barreira dos 11% nos próximos anos, um movimento impulsionado pela migração para a nuvem. Atualmente, a computação em nuvem, que permite o armazenamento e processamento de dados em servidores remotos acessados via internet, já é responsável por 52% de todo o processamento realizado pelas organizações no país.
O setor financeiro permanece como o principal motor desses investimentos, com expectativas de alocar 56 bilhões de reais em tecnologia até 2027. O foco atual das lideranças corporativas reside no chamado alinhamento estratégico, que busca harmonizar a implementação de sistemas integrados de gestão, conhecidos como ERP, com o uso avançado de inteligência analítica. Esse esforço visa otimizar a estrutura operacional para que a tecnologia, além de estar presente em grande quantidade de dispositivos, possa atuar efetivamente como um suporte fundamental para a tomada de decisão e a eficiência dos negócios no Brasil.
RESUMO: O Brasil alcançou a marca de 502 milhões de dispositivos digitais, com destaque para os 272 milhões de smartphones em circulação, revelando uma alta densidade tecnológica. A 36ª Pesquisa Anual do FGVcia aponta que, apesar do forte investimento em TI, que subiu para 10% da receita das empresas em 2024, o uso de inteligência artificial ainda é incipiente. Embora ferramentas generativas como o Copilot tenham presença corporativa, a aplicação prática permanece limitada, com departamentos ainda dependentes de métodos tradicionais. O setor bancário lidera os investimentos, mirando no alinhamento estratégico e na modernização dos sistemas de gestão para extrair valor real dos avanços tecnológicos em curso.