Doom roda até em fones de ouvido sem tela
O clássico Doom ganhou mais um port improvável: o programador Arin Sarkisan conseguiu fazê-lo rodar em fones de ouvido sem fio projetados apenas para áudio. O experimento, batizado informalmente de Doombuds, prova mais uma vez a criatividade da comunidade hacker e a flexibilidade do software livre — mesmo quando o dispositivo não tem qualquer capacidade gráfica nativa.
O truque só foi possível graças ao modelo escolhido: os PineBuds Pro, que adotam firmware totalmente open source e dispõem de um kit de desenvolvimento mantido pela comunidade. Essa abertura do hardware e do software permitiu a Sarkisan acessar pontos de baixo nível do aparelho e testar soluções que seriam inviáveis em fones convencionais.
Em vez de tentar exibir imagens diretamente — algo impossível sem tela —, o programador criou uma abordagem indireta. Ele implementou uma interface em JavaScript que comunica-se com os fones por meio dos contatos UART presentes no hardware, canais normalmente usados para depuração e desenvolvimento. A partir daí, o dispositivo gera um fluxo de vídeo compactado em MJPEG que é transmitido via uma ponte serial para um servidor web.
A taxa de transferência alcançada pela ponte chega a cerca de 2,4 MB por segundo, o que permite enviar entre 22 e 27 quadros por segundo na transmissão. Contudo, o próprio processamento dos fones é mais limitado: o hardware dos PineBuds Pro consegue rodar Doom a, no máximo, cerca de 18 quadros por segundo. Ou seja, o gargalo neste experimento está no poder computacional do dispositivo, não na transmissão dos dados.
O resultado não transforma os fones em uma plataforma de jogo tradicional — a experiência não é exatamente jogável como em um PC ou console —, mas atinge o propósito do projeto: demonstrar que, com acesso ao hardware e código aberto, é possível fazer o jogo rodar em aparelhos improváveis. A iniciativa reforça a cultura hacker em torno de Doom, que desde os anos 1990 virou um teste informal de criatividade técnica. Ao longo das décadas, entusiastas já haviam feito o shooter rodar em calculadoras, geladeiras, testes de gravidez, tratores e até em arquivos PDF; agora, ele soma mais um recorde curioso à lista.
Além de celebrar a experimentação, o projeto evidencia como o código aberto permite usos inesperados e expande o que dispositivos foram originalmente projetados para fazer, mesmo quando as limitações de processamento tornam a experiência mais simbólica do que prática.