O cantor e compositor norte-americano Cameron Winter, de apenas 24 anos, chega agora às plataformas de streaming de música com "Live at Carnegie Hall", álbum ao vivo que documenta a apresentação com a qual ele encabeçou, no fim do ano passado, o palco do Carnegie Hall. A casa de espetáculos de Nova York é tradicionalmente reservada a artistas com longa trajetória de consagração, o que torna o feito do jovem músico ainda mais notável: ele foi um dos nomes mais jovens a encabeçar um show no local.
A trajetória que levou Cameron Winter até lá foi surpreendentemente rápida. Até dois anos atrás, ele não passava do vocalista do Geese, uma competente banda de indie rock — estilo ligado à cena musical independente —, mas sem projeção suficiente para sacudir o mundo. No fim de 2024, ele lançou de forma despretensiosa seu primeiro disco solo, "Heavy Metal", e uma parcela do público e da crítica perdeu as estribeiras. Uma busca simples na internet já devolve artigos de críticos musicais impressionados que o chamam de "voz de uma geração", rótulo historicamente atribuído a nomes como Bob Dylan, Bruce Springsteen, Madonna e, no Brasil, Cazuza e Cássia Eller.
O disco solo mostra o que justificou tamanha repercussão. São melodias virtuosas, vocais febris e letras cortantes, construídas com pouco mais que seu piano e sutis instrumentações. O trabalho mistura referências como Bob Dylan, Beck e Randy Newman em composições que expõem a arrogância, a confusão, a melancolia, o pânico e a rara esperança dos tempos atuais, entregues por um artista jovem que não teme correr riscos com a própria música.
Com apenas um disco solo, Cameron Winter formou um verdadeiro culto. De um dia para o outro, tornou-se um dos artistas mais badalados dos Estados Unidos, aparecendo em grandes programas de televisão, lotando apresentação no Brasil durante o C6 Fest deste ano e alavancando por tabela o Geese, banda que no ano passado lançou o elogiado disco "Getting Killed".
O show no Carnegie Hall, porém, representou o capítulo mais ousado dessa ascensão. Além de lotar o auditório, o músico teve a apresentação filmada em IMAX — formato de cinema caracterizado por telas gigantes e som de alta fidelidade — por Paul Thomas Anderson, diretor que ganhou o Oscar este ano pelo filme "Uma Batalha Após a Outra". Quase um ano depois, o resultado chega ao público em dois formatos: o disco "Live at Carnegie Hall", já disponível nas plataformas de streaming, e o filme, exibido por enquanto apenas em poucos cinemas dos Estados Unidos, com previsão de estrear nos próximos meses no Mubi, plataforma de streaming dedicada ao cinema.
Mesmo sem as imagens, a apresentação soa épica nos áudios — o que chega a ser um paradoxo, já que tudo o que se ouve é o piano e a voz nua do cantor. A voz trepidante, o piano nervoso e a tensão de cada verso transmitem a grandeza de alguém com décadas de palco, ainda que a carreira solo tenha começado há quase dois anos. Em um cenário de artistas muito conscientes da própria imagem, Cameron Winter se move com a coragem — ou a imprudência — de quem não tem nada a perder, entregando-se às composições como se elas fossem donas dele.
Faixas como "$0" e "Nina + Field of Cops", que já eram muito boas nas versões de estúdio de "Heavy Metal", tornam-se implacáveis ao vivo, como se o músico as executasse com a vida dependendo disso. O minimalismo do formato também revela dimensões inéditas em outras canções do curto repertório: "Love Takes Miles", a mais conhecida do disco original, se transforma de um rock leve em uma balada de piano quase messiânica, na qual os versos agridoces atingem o dobro de impacto, especialmente na segunda parte.
Atribuir superlativos a um artista que ainda mal começou a carreira pode ser precipitado, mas mesmo com a amostragem pequena, Cameron Winter se credencia como um dos nomes mais poderosos a surgirem na música norte-americana recente. Na prática, o novo álbum permite que qualquer ouvinte acompanhe o registro dessa noite decisiva, enquanto o filme deve ampliar o alcance do momento nos próximos meses. Se todo o entusiasmo em torno dele estiver correto, estaremos documentando o início da jornada de uma voz geracional — e, como diria o jornalista gaúcho Wianey Carlet ao comparar a campanha do atacante Taison no Inter de 2010 à de Messi no Barcelona antes de cravar um veredito, só o tempo dirá.