Uma empresa israelense utilizou a publicidade digital como instrumento de espionagem, segundo conclusão de pesquisadores de segurança citados em reportagem assinada por Raphael Satter, da agência de notícias Reuters. A operação, que ficou associada ao nome Discover-Tech, teria explorado o fluxo de anúncios da internet para levar um spyware, ou seja, um programa espião capaz de comprometer aparelhos, até os dispositivos das pessoas visadas.
O detalhe mais alarmante do esquema está na forma de contágio. Ao contrário dos golpes tradicionais, que dependem de a vítima clicar em um link malicioso ou abrir um arquivo suspeito, nesse caso bastava o anúncio carregar na tela do dispositivo para que a ação de espionagem fosse deflagrada. Isso significa que o usuário não precisava interagir com a publicidade de nenhuma maneira para ser atingido.
Os pesquisadores documentaram que pelo menos 45 dispositivos da Al Jazeera, emissora de televisão sediada no Catar, foram atacados por meio dessa técnica. A investigação indica que a rede de anúncios online, estrutura que distribui publicidade automaticamente por sites e aplicativos em todo o mundo, foi manipulada para identificar e atingir os alvos selecionados pela operação.
O uso da infraestrutura publicitária como vetor de ataque expõe uma fragilidade pouco discutida do ecossistema digital. Anúncios são carregados dinamicamente em milhões de páginas e aplicativos a cada segundo, e o caso agora revelado mostra que esse mecanismo pode ser desviado de sua função comercial para servir a atividades de vigilância, sem que a vítima perceba qualquer sinal de invasão.
Na prática, a descoberta coloca em xeque a segurança de qualquer pessoa que navega na internet, uma vez que a simples exposição a uma propaganda pode, em cenários como esse, abrir caminho para a instalação de ferramentas de espionagem. A revelação também reforça o debate internacional sobre a atuação de companhias israelenses no mercado de vigilância eletrônica, setor que já foi alvo de investigações em diversos países por causa do uso de suas tecnologias contra jornalistas e profissionais de imprensa, como ocorreu com os equipamentos da Al Jazeera.