Uma estrutura de pedras com formas circulares, corredores e áreas retangulares identificada nas imagens do Google Earth tornou-se objeto de investigação de arqueólogos nos Andes argentinos. O conjunto está localizado na cordilheira do Tigre, na província de Mendoza, a mais de três mil metros de altitude, em uma área de difícil acesso. As características incomuns da formação e a ausência de registros semelhantes na região fizeram com que pesquisadores tratassem o achado como inédito para a arqueologia local.
A descoberta partiu de Carlos Gobbi, um montanhista que há quase três décadas procurava possíveis sítios arqueológicos na região. Depois de ouvir relatos sobre antigas construções de pedras na cordilheira do Tigre, ele passou a examinar a área por meio de imagens de satélite. Foi em maio de 2025 que Gobbi identificou uma formação que despertou sua curiosidade, embora chegar até ela tenha se mostrado um desafio. Duas tentativas de expedição, em setembro e novembro daquele ano, não foram concluídas.
A primeira visita bem-sucedida aconteceu em 14 de fevereiro de 2026, quando o montanhista chegou ao local acompanhado de Adrián Radich e Gabriel Orofino. A jornada levou quase quatro dias, atravessando um território sem água nas proximidades e sem sinal de telefone. No local, o grupo encontrou pedras empilhadas que formavam passagens, além de setores escavados e revestidos com rochas. Algumas estruturas estavam parcialmente enterradas, enquanto outras se elevavam acima do terreno.
Ao retornar, Gobbi apresentou fotografias do achado às arqueólogas Cristina Prieto-Olavarría e Horacio Chiavazza, pesquisadores envolvidos no projeto ArqueoAndes, colaboração entre especialistas da Argentina e da Espanha dedicada ao estudo das transformações históricas da paisagem na alta montanha dos Andes. As imagens despertaram interesse imediato, mas não permitiram determinar quando a construção foi feita nem a que ela servia. Para os pesquisadores, o conjunto representa uma descoberta sem precedentes justamente por não haver estruturas semelhantes registradas em Mendoza.
Vista de cima, a disposição das pedras forma uma figura que pode ser interpretada como um geoglifo, termo que descreve desenhos de grandes dimensões feitos diretamente no terreno, seja por meio de escavações, seja pela disposição de materiais como pedras. A comparação com as famosas Linhas de Nazca, no Peru, é inevitável, mas os pesquisadores apontam diferenças importantes entre os dois casos. Enquanto os desenhos de Nazca foram produzidos principalmente pela remoção de pedras e pela exposição do solo, o conjunto encontrado em Mendoza foi erguido pelo empilhamento de rochas e pela criação de corredores.
Por causa disso, a semelhança visual observada nas imagens de satélite não significa que as duas estruturas tenham a mesma origem, técnica de construção ou finalidade. A classificação do achado argentino como geoglifo ainda precisa ser investigada. Os arqueólogos também desconhecem se a formação foi construída em um único período ou se passou por modificações ao longo do tempo. Qualquer conclusão dependerá de análises mais detalhadas, uma vez que as imagens sozinhas não oferecem respostas definitivas.
Uma das principais hipóteses em avaliação é que a estrutura tenha sido utilizada durante o período inca, entre os séculos XV e XVI. A possibilidade se apoia no fato de que os incas atribuíam importância religiosa a montanhas, caminhos e outros elementos da paisagem, o que permitiria ao local uma função cerimonial ou simbólica. Ainda assim, não há evidências suficientes para confirmar essa interpretação, e os especialistas não descartam que a construção seja anterior ou posterior àquele período.
A própria localização levanta dúvidas sobre o uso do espaço. A área é de difícil acesso e não possui fontes de água próximas, características que tornam improvável uma ocupação residencial permanente. Durante o primeiro reconhecimento, os exploradores não encontraram fragmentos de cerâmica nem restos de alimentos na superfície que indicassem a presença contínua de uma comunidade. Diante disso, os pesquisadores avaliam a possibilidade de o local ter servido como acampamento sazonal ou ter cumprido funções distintas ao longo de sua história. A ausência de materiais arqueológicos na superfície, porém, não é suficiente para determinar a idade do sítio.
Uma nova expedição está prevista para dezembro de 2026, com participação de pesquisadores argentinos e espanhóis, e Gobbi deverá acompanhar a equipe como guia até o local. O trabalho de campo pretende mapear a estrutura com drones e equipamentos de GPS de precisão, realizar escavações e coletar sedimentos para análises. Os dados poderão ajudar a estabelecer a idade da construção e reconstituir as condições ambientais da região durante os períodos em que ela pode ter sido utilizada.
A pesquisa integra o ArqueoAndes, que reúne especialistas do Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais, vinculado ao Conicet, além da Universidade Nacional de Cuyo e da Universidade de Jaén, na Espanha. Além de esclarecer a origem da estrutura, os pesquisadores pretendem compreender como populações antigas ocupavam e atribuíam significado à paisagem montanhosa, considerando também a relação do patrimônio com as comunidades originárias da região de Uspallata. Toda a investigação precisará seguir procedimentos capazes de preservar o local e evitar danos às estruturas.
Até que a expedição seja concluída e os resultados analisados, a idade, a função e a possível ligação do conjunto com os incas continuarão em aberto. O que já é possível afirmar, por enquanto, é que o Google Earth serviu como ponto de partida para uma investigação que pode revelar novos detalhes sobre a presença humana nos Andes.