Empresas que criam soluções para o tratamento de água já podem se inscrever, a partir desta sexta-feira (09), em uma seleção que concede aporte financeiro de até R$ 79.852,50 para a realização de uma prova de conceito na Empresa de Saneamento do Mato Grosso do Sul (Sanesul). A prova de conceito é um teste prático que verifica se uma tecnologia funciona em condições reais de operação. A iniciativa integra o programa Sanesul Innova e escolherá até quatro companhias dedicadas a tecnologias de tratamento de água subterrânea usada no abastecimento público.
O programa nasce de uma parceria entre a Sanesul, o Itaipu Parquetec e o Fonplata, banco de desenvolvimento formado por Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Por essa razão, startups dos cinco países podem concorrer. Há, porém, uma condição para as estrangeiras: antes da contratação, elas precisam constituir pessoa jurídica no Brasil e obter CNPJ ativo. A empresa de saneamento é uma sociedade de economia mista vinculada ao governo de Mato Grosso do Sul e responde pelos serviços públicos de abastecimento de água e esgoto no estado.
Os requisitos técnicos também são específicos. A tecnologia apresentada deve estar entre os níveis 5 e 9 da escala TRL, que mede a maturidade de uma inovação. Isso significa que a solução precisa ter sido testada e estar pronta para avançar à validação em ambiente relevante ou operacional, ou seja, próximo das condições reais de uso. Cada startup ainda precisa ter pelo menos um profissional dedicado integralmente ao negócio e apresentar uma proposta aplicável a um dos dois desafios do edital. Cada empresa pode concorrer com apenas uma inscrição, direcionada a um único desafio.
A inscrição exige um vídeo de apresentação com duração máxima de cinco minutos, no qual a startup deve explicar a solução, seus diferenciais, a aderência ao problema proposto, a capacidade de execução da equipe e a viabilidade técnica e econômica da proposta. Além do dinheiro, as selecionadas ganham acesso à infraestrutura da Sanesul para testar suas tecnologias, acompanhamento técnico e mentorias nas áreas de tecnologia, negócios e mercado.
Os dois desafios envolvem problemas concretos de cidades sul-mato-grossenses. O primeiro busca formas de remover ou reduzir a presença de caulim na água subterrânea de Naviraí. Esse mineral está associado a níveis elevados de turbidez, que é a perda de transparência da água, e de cor, o que dificulta o tratamento. A expectativa é que as tecnologias testadas melhorem a qualidade da água, ampliem o aproveitamento dos poços existentes e reduzam os custos operacionais da companhia.
O segundo desafio mira a remoção de flúor e sais dissolvidos na água subterrânea de Juti. As soluções devem ajudar a adequar o recurso aos padrões de potabilidade, aumentar a disponibilidade de água para a população e diminuir a necessidade de investimentos em novas estruturas de captação. Em ambos os casos, as tecnologias terão de demonstrar potencial para cumprir as normas de potabilidade previstas na regulamentação do Ministério da Saúde. O edital também valoriza diferenciais como baixo consumo de energia e reagentes, facilidade de operação e manutenção, monitoramento em tempo real e gerenciamento adequado dos resíduos gerados.
A seleção será conduzida em três etapas principais: análise técnica das propostas, apresentação no Demoday e verificação da documentação das empresas classificadas. O Demoday é um evento em que as startups apresentam suas soluções ao público. Na avaliação técnica, os avaliadores considerarão a aderência ao desafio, a viabilidade técnica e econômica, a experiência da equipe e o potencial de mercado e a escalabilidade da solução. O resultado dessa primeira fase está previsto para 10 de dezembro, e até 12 startups avançarão ao Demoday, marcado para os dias 16 e 17 do mesmo mês.
O resultado final será divulgado em 22 de dezembro, e as escolhidas terão até 17 de janeiro de 2027 para enviar a documentação exigida na formalização dos contratos. Depois da assinatura, as empresas contarão com até seis meses para desenvolver a prova de conceito e entregar o relatório final. O pagamento será liberado por etapas, condicionado à validação das entregas: 40% após a aprovação do plano de ação, outros 40% depois da implementação da solução e da validação de um relatório parcial, e os 20% restantes com a entrega e aprovação do relatório final.
Há pontos de atenção para quem pretende participar. A seleção não garante contratação comercial posterior pela Sanesul: ao fim dos testes, a companhia avaliará os resultados técnicos, operacionais e econômicos antes de decidir se quer adquirir as soluções. O edital também prevê royalties de 2% sobre as receitas brutas obtidas pela startup com a comercialização ou exploração econômica da solução criada no programa, durante três anos a partir da aprovação do relatório final. Royalties são pagamentos periódicos pelo direito de uso de uma tecnologia, e as condições específicas serão detalhadas no contrato.
Na prática, a iniciativa abre caminho para que pequenas empresas de base tecnológica validem seus produtos dentro de uma operação real de saneamento, um cenário difícil de alcançar por conta própria. Para a Sanesul, o programa representa uma forma de buscar alternativas para problemas persistentes no abastecimento de municípios como Naviraí e Juti, com risco financeiro limitado. Os próximos marcos do cronograma são a divulgação da análise técnica, em dezembro, e o Demoday, que definirá as quatro startups contempladas.