Anthropic afirma que seu modelo de inteligência artificial Claude identificou de forma autônoma um novo sistema enzimático com características semelhantes ao CRISPR, a ferramenta de edição genética que revolucionou a biotecnologia nos últimos anos. O anúncio foi feito pela empresa como o primeiro resultado de seu recém-criado laboratório de biologia, chamado Biolab, e representa um teste inicial do uso da inteligência artificial em pesquisas científicas avançadas.
De acordo com a empresa, Claude encontrou o sistema enzimático após vasculhar um amplo banco de dados de sequências de DNA. A participação dos cientistas da Anthropic ficou restrita à formulação do comando inicial e à execução dos experimentos em laboratório. Ao longo de 21 horas, cerca de 950 agentes do modelo Claude trabalharam com 210 milhões de tokens, unidades de texto usadas pela inteligência artificial para processar informações, até que um deles identificou um padrão incomum de repetições no conjunto de dados e sinalizou o achado para análise humana.
Após testes adicionais em laboratório, a análise revelou um sistema enzimático até então não caracterizado, encontrado em bacteriófagos, que são vírus que infectam bactérias. A estrutura identificada, batizada de ART, apresenta trechos curtos e repetidos de DNA posicionados ao lado de dois genes: um relacionado a uma enzima já conhecida e outro ligado a uma proteína de função desconhecida. A configuração lembra a do CRISPR, um sistema natural de defesa presente em bactérias que foi transformado pelos cientistas em uma tecnologia de edição de genes amplamente utilizada na medicina.
A função exata do sistema ART ainda é desconhecida, mas a Anthropic afirmou que experimentos iniciais sugerem que ele pode ser programável, assim como o CRISPR. Os resultados foram publicados como um preprint, versão de um artigo científico disponibilizada antes da revisão por outros pesquisadores, e ainda não passaram pela avaliação da comunidade científica. O anúncio foi feito em conjunto com a criação formal de um novo grupo de ciências biológicas dentro da empresa, voltado a usar o Claude para triar grandes bancos de dados genéticos e identificar proteínas promissoras para testes em laboratório.
Para reforçar a iniciativa, a Anthropic tem investido na contratação de pesquisadores renomados na área de biologia. Em junho, a empresa contratou o Nobel John Jumper, que estava no Google DeepMind e participou do desenvolvimento do AlphaFold, sistema de inteligência artificial conhecido por prever estruturas de proteínas. O autor principal do trabalho divulgado nesta semana é Peter H. Yoon, que anteriormente atuou no laboratório da bioquímica Jennifer Doudna na Universidade da Califórnia em Berkeley. Doudna recebeu o Prêmio Nobel justamente pelo desenvolvimento do CRISPR.
O cofundador e diretor-executivo da Anthropic, Dario Amodei, classificou o achado como preliminar. Ele também mencionou que uma equipe da Universidade Stanford havia descrito de forma independente um sistema comparável, porém distinto. Entre as vozes que reagiram ao anúncio, Feng Zhang, pesquisador do MIT e do Broad Institute e um dos pioneiros do CRISPR, considerou a identificação dos fragmentos repetidos de DNA como genuinamente intrigante e afirmou que o achado merece investigação mais aprofundada.
Apesar do entusiasmo da empresa, a divulgação gerou críticas de parte da comunidade científica. Pesquisadores como Lucas Harrington e Steven Salzberg questionaram a estratégia de comunicar o resultado antes da conclusão dos experimentos laboratoriais. A publicação do trabalho antes da revisão por pares também foi apontada como um fator de preocupação. Em resposta, o diretor-executivo da farmacêutica Eli Lilly, Dave Ricks, manifestou apoio público ao anúncio. Um dos principais pontos de crítica foi sintetizado por um especialista que afirmou, de forma resumida, que os experimentos ainda estão na fila enquanto o comunicado de imprensa já foi divulgado.
O próximo passo da Anthropic é justamente realizar experimentos práticos para entender o funcionamento do sistema ART e avaliar se ele pode se tornar uma ferramenta útil em pesquisas biológicas e aplicações práticas. A empresa afirmou que decidiu compartilhar os resultados de forma antecipada para demonstrar as capacidades do Claude e oferecer à comunidade científica uma visão do que está em desenvolvimento dentro de seu novo laboratório de biologia.