Mais de 96% das empresas não financeiras no Brasil adotam a inteligência artificial em suas operações internas em alguma medida, de acordo com dados inéditos divulgados pelo Banco Central por meio da Pesquisa Firmus. O levantamento revelou que a transformação digital alcançou um patamar de ampla consolidação no setor produtivo nacional, abrangendo desde iniciativas experimentais até estruturas totalmente integradas aos negócios corporativos. A autoridade monetária buscou mapear o estágio exato da implementação tecnológica nas companhias ouvidas durante o trimestre.
A pesquisa recolheu respostas detalhadas sobre o nível de maturidade digital de cada organização, utilizando categorias que vão desde a ausência total de planos até o uso disseminado da tecnologia. Os resultados apontam que 36,7% das companhias utilizam as ferramentas de inteligência artificial de forma experimental ou por meio de iniciativas informais. Outros segmentos importantes relataram um emprego mais maduro, com 34% aplicando os recursos de maneira estruturada e recorrente exclusivamente em atividades-meio.
Além disso, o estudo mostrou que 20,1% das empresas pesquisadas já utilizam esses recursos de forma estruturada e recorrente nas atividades-fim de suas operações. Um grupo menor, equivalente a 5,5% do total, afirmou que a tecnologia está totalmente disseminada e integrada à maior parte dos processos diários. Em contrapartida, apenas 3,7% dos entrevistados declararam que não fazem uso de inteligência artificial atualmente, sendo que uma parcela de 1,1% descartou planos de adoção no curto prazo, enquanto 2,6% planejam introduzir as ferramentas em breve.
O levantamento também detalhou quais são as aplicações mais comuns da tecnologia nas rotinas corporativas brasileiras. A geração e a análise de textos lideram as finalidades citadas, reunindo a preferência de 84,4% dos respondentes que utilizam inteligência artificial. Na sequência, mais de 80% das empresas afirmaram empregar os sistemas para tarefas de análise, classificação e previsão baseadas em grandes volumes de dados.
Outras frentes de atuação tecnológica registraram índices expressivos de adesão no ambiente produtivo. Cerca de 50,4% das companhias participantes indicaram que utilizam os modelos para gerar imagens e vídeos, enquanto 49,3% aproveitam os recursos para criar e revisar códigos de programação. Recursos como transcrição e geração de voz alcançaram 31,9% das respostas, ficando próximos do reconhecimento e análise de imagens, que somaram 31,7%. A robótica e o uso de equipamentos autônomos em processos físicos apareceram em 16,1% dos relatos.
As empresas também foram questionadas sobre os reflexos práticos dessa adoção tecnológica no volume físico e no custo médio de produção. No entanto, a maioria expressiva de 63,9% dos entrevistados declarou que ainda não possui estimativas consolidadas sobre o impacto exato no volume produzido. Entre aqueles que conseguiram mensurar o efeito, 14% apontaram um crescimento produtivo superior a 1% até 5%, 7,7% relataram um ganho acima de 5%, e 7,4% registraram oscilações modestas entre -1% e 1%.
Um cenário semelhante de indefinição numérica foi observado em relação aos custos operacionais decorrentes da introdução da inteligência artificial. Novamente, 63,9% das empresas afirmaram não ter estimativas formadas sobre variações nos custos de produção. Por outro lado, 12,4% dos respondentes perceberam um impacto que oscila entre -1% e 1%, e 7,1% constataram aumentos superiores a 1% e até 5% na estrutura de gastos.
A Pesquisa Firmus é realizada de forma trimestral pelo Banco Central com o propósito de capturar a percepção de companhias não financeiras sobre o ambiente de negócios e variáveis macroeconômicas. A edição mais recente ouviu 379 empresas durante o terceiro trimestre, com o período de coleta de dados concentrado entre os dias 10 e 28 de agosto. O levantamento também monitora expectativas empresariais sobre indicadores cruciais para a economia nacional.
As projeções coletadas junto ao setor empresarial mostraram estabilidade na mediana das estimativas para a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo em 2026, mantida em 5%. Para o ano de 2027, contudo, a expectativa inflacionária subiu de 4% para 4,5%. No tocante ao crescimento do Produto Interno Bruto, as previsões das companhias para 2026 subiram ligeiramente de 1,8% para 1,9%, ao passo que a estimativa para o ano seguinte recuou de 1,8% para 1,5%.
A consolidação desses dados pelo Banco Central ilustra a velocidade com que o tecido empresarial brasileiro absorveu ferramentas avançadas de tecnologia da informação. A dependência de algoritmos para redação, tratamento de dados e suporte ao desenvolvimento de software demonstra que a automação deixou de ser um diferencial competitivo exclusivo para se tornar a base operacional de praticamente todo o parque corporativo nacional.