Motorola afirma cumprir regras de transparência, mas páginas da loja oficial contradizem a empresa após condenação no Conar
A Motorola foi condenada pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), entidade que regulamenta a publicidade no país, por veicular informações enganosas sobre seus smartphones. Em sua primeira manifestação pública desde a decisão, divulgada neste sábado (26/09), a companhia afirmou manter o compromisso com a transparência e com a clareza das informações disponibilizadas aos consumidores. Verificação realizada na loja oficial da fabricante, porém, aponta uma realidade bem diferente daquela descrita em seu comunicado oficial.
A polêmica teve início cerca de um ano e meio atrás, quando a marca passou a divulgar seus celulares com destaque para a promessa de "até 24 GB de RAM". Para chegar a esse número, a empresa somou a memória RAM física do aparelho, componente do hardware, com a chamada RAM virtual, uma técnica baseada em software que simula memória adicional usando parte do armazenamento interno do dispositivo. Essa forma de apresentar a especificação é incomum no mercado brasileiro e chamou a atenção do setor.
O caso foi levado ao Conselho de Ética do Conar, que decidiu por unanimidade que a Motorola precisa adequar a forma de divulgar as informações sobre memória de seus aparelhos. O processo correu por semanas antes do desfecho, anunciado na quinta-feira (24/09). A decisão não foca na parte técnica da funcionalidade, mas sim na maneira como as especificações são comunicadas ao consumidor.
Em nota, a Motorola sustentou que "a alteração requerida pelo Conar já havia sido implementada em nossos canais próprios desde o início de agosto". A informação, contudo, não se sustenta diante das evidências. Uma averiguação realizada na sexta-feira (25/09) encontrou inúmeros produtos com descrições que feriam a orientação do órgão, incluindo a página do Edge 70 Pro, que citava "até 24 GB de RAM" em letras garrafais. Segundo a apuração jornalística, algumas dessas páginas passaram por alterações apenas no decorrer da própria sexta-feira, depois que a notícia ganhou repercussão na imprensa, o que demonstra que o cronograma citado pela empresa não tem embasamento factual.
Procurada com novos questionamentos sobre as contradições, a área de comunicação da Motorola não quis responder. Outro ponto do comunicado que carece de comprovação é a alegação de que somar memória física e virtual seria um "padrão de mercado". Repórteres que cobrem o setor de celulares há mais de uma década afirmam nunca ter visto essa prática se tornar costume, e o cálculo já havia sido alvo de críticas da imprensa e de leitores em reportagens anteriores.
Ainda assim, a companhia tem razão em um ponto específico: ela sustentou que o formato "continua sendo utilizado por outros fabricantes, concorrentes da Motorola". Uma checagem realizada neste sábado (26/09) identificou a mesma prática em páginas de produtos da Xiaomi e da Jovi. Já os sites da Apple, Samsung, Realme e Oppo não apresentavam o problema. Ainda não se sabe se o Conar irá se manifestar sobre esses casos semelhantes.
Vale entender a diferença entre os dois tipos de memória no centro da discussão. A RAM física depende de um chip dedicado, instalado no hardware do aparelho, para guardar as informações processadas pelo dispositivo. Já a RAM virtual é uma função de gerenciamento que simula memória adicional utilizando o armazenamento interno do telefone, com o objetivo de otimizar o desempenho geral e permitir que mais aplicativos sejam executados simultaneamente.
A funcionalidade, presente em inúmeros aparelhos vendidos no Brasil, pode trazer um leve ganho quando ativada. Em testes realizados pela reportagem, o recurso conhecido como RAM boost apresentou melhora perceptível, o que torna a ferramenta bem-vinda do ponto de vista do consumidor em momentos de maior necessidade. O problema apontado pelo Conar não está na técnica em si, mas na forma de comunicá-la, já que somar os dois valores pode induzir o comprador a erro sobre a capacidade real do aparelho.
O Conar é uma entidade não governamental que não possui poder de Justiça nem de polícia, mas suas decisões são rigorosamente respeitadas pelos setores de mídia e publicidade. Seu regulamento prevê a possibilidade de recurso, e a Motorola informou que analisará o teor da decisão, que diz já ter acatado, para avaliar ações adicionais. A empresa reforçou, em sua nota oficial, que considera fundamental comunicar as especificações de memória de forma clara e objetiva e que seguirá com esse posicionamento independentemente de os concorrentes continuarem adotando o formato anterior.
Ao final, o episódio expõe uma contradição evidente entre o discurso institucional da fabricante e o que sua própria loja virtual exibia aos consumidores. A decisão unânime do Conselho de Ética do Conar estabelece que a divulgação precisa ser revista, e o acompanhamento da imprensa mostrou que as adequações citadas pela Motorola ocorreram apenas depois da repercussão pública do caso. Resta saber se a empresa buscará um recurso e se o órgão se manifestará sobre as práticas semelhantes identificadas em outras fabricantes.