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O Fim das Startups como as Conhecemos: Como a IA e o Efeito 'Sherlocking' Estão Reescrevendo as Regras do Jogo

25/09/2026
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Cassio Bobsin, fundador e CEO da Zenvia, afirmou durante painel da Semana Caldeira, em Porto Alegre, que a inteligência artificial alterou de forma profunda as regras do jogo para startups. Segundo ele, uma única funcionalidade nova lançada por uma grande plataforma pode eliminar do mercado até uma centena de empresas emergentes de uma só vez. A declaração revisou, com visão ainda mais agressiva, a frase do também painelista Eduardo Vieira, sócio do SoftBank na América Latina e da FSB Holding, que momentos antes havia dito que "mudar uma funcionalidade, mata dez startups".

O debate tratou de um temor antigo do capital de risco, o setor que financia empresas iniciantes com alto potencial de crescimento. O fenômeno tem até nome próprio, batizado de sherlocking: quando uma plataforma grande resolve, com uma funcionalidade nova, o mesmo problema que uma startup levou anos construindo. A diferença, apontaram os executivos, é que a inteligência artificial generativa encurtou esse ciclo, que antes levava anos, para poucas semanas.

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Para Cassio, que acumula 20 anos de estrada como fundador das primeiras ondas de startups do país, além de uma abertura de capital na bolsa e um posterior fechamento de capital, o paradigma atual é o mais complicado já vivido pelas empresas. Ele avaliou que a estrutura clássica de um negócio, com áreas, hierarquia e processos que caminham entre departamentos, deixou de fazer sentido. Para ilustrar, usou um exemplo simples: quando um cliente quer comprar uma pizza, o que importa é apenas que ela chegue quente, sem qualquer preocupação com a complexidade interna da empresa.

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A consequência prática, segundo o executivo, recai sobre quem aloca capital. Ele contou que apresentações de negócio de apenas seis meses atrás, do tipo "vou fazer uma empresa de IA que faz isso", já caíram por terra. "Acabou o pitch, acabou a empresa. Virou feature", declarou, estimando que 80% delas já perderam a validade. Diante disso, ele questionou como é possível alocar capital nesse cenário.

Cassio também defendeu que a lógica que sustentava o capital de risco mudou de natureza. Antes, o dinheiro captado servia para bancar o fluxo de caixa negativo das empresas, que, em companhias de conhecimento, era basicamente a folha de pagamento. Agora, ele pondera, não faz sentido ter muitas pessoas, pois isso gera perda de eficiência. Como exemplo, citou casos de companhias que chegaram a 100 milhões de dólares de receita recorrente em 18 meses com apenas 10 ou 20 funcionários.

Do lado de quem investe, Eduardo Vieira reconheceu que o descompasso do mercado tem dificultado o trabalho. Ele relatou um caso recente em que avaliou uma empresa, considerou a tese ainda imatura e, quatro meses depois, viu o valor de mercado da companhia quadruplicar. "A pergunta é: como? Não dá para acompanhar", resumiu.

O contraponto veio de Marcos Boschetti, CEO e cofundador da Nelogica, que apresentou a perspectiva de quem construiu sem dinheiro externo. A empresa nasceu em Porto Alegre com dois sócios que tentaram levantar 20 mil reais e não conseguiram. "Quando você não tem dinheiro, naturalmente tem que procurar soluções. A gente tem uma cultura forjada na escassez", contou. A vantagem competitiva veio de uma regra simples: enquanto concorrentes levavam de 16 a 18 meses para lançar uma atualização, a Nelogica colocava uma versão nova na rua toda quinta-feira, o que significava 50 lançamentos por ano contra um a cada ano e meio.

Para Boschetti, a velocidade deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser necessidade básica para permanecer competitivo. Ele ponderou que os fundamentos do negócio não mudaram, apenas ficaram mais baratos e mais rápidos, e que a proteção contra o efeito descrito por Cassio está em outros pontos. "Dados proprietários são uma barreira de entrada hoje no mercado", afirmou. A segunda barreira, segundo ele, é a relação com o cliente, construída a partir de duas perguntas que a empresa faz até hoje: o que ele precisa e, principalmente, o que nenhuma outra solução entregou. Com isso, explicou, surge um fenômeno de cocriação, em que, apesar de o produto pertencer à empresa, existe uma sensação de copropriedade e o cliente sente que faz parte do processo.

Sobre capital, Boschetti seguiu na direção oposta ao discurso de crescimento a qualquer custo. "Levantar investimento tem que ser uma etapa do caminho, e não a linha de chegada", declarou. Fundada em 2003, a Nelogica passou anos crescendo com recursos próprios, sem aportes externos, e só aceitou sócios quando buscou governança, um braço de fusões e aquisições e gente nova no conselho. Em novembro de 2020, a empresa fundada por ele e por Fabiano Kerber recebeu cerca de 550 milhões de reais da Crescera e da Vulcan Capital por uma fatia minoritária, em transação que combinou captação nova e venda de quotas e avaliou a companhia em 2,9 bilhões de reais.

Na época do aporte, o faturamento da Nelogica crescia mais de 100% ao ano na média composta dos três anos anteriores. Ainda assim, a empresa recusou abordagens de bancos para uma abertura de capital e optou por seguir com capital fechado, encerrando o painel com um contraste claro: de um lado, o alerta sobre a inteligência artificial como força destruidora de modelos de negócio; do outro, a defesa de dados próprios, proximidade com o cliente e disciplina financeira como caminhos de sobrevivência.

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