PUBLICIDADE

O paradoxo da IA na educação: por que alunos que nunca usam a tecnologia — ou a usam intensamente — se saem melhor do que os usuários casuais, segundo o Pisa 2025

09/09/2026
62 visualizações
4 min de leitura
Imagem principal do post

Pisa 2025 revela padrão curioso: alunos que nunca usam IA e os que usam muito tendem a ter desempenho melhor do que os que adotam a tecnologia de forma esporádica

Pela primeira vez, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) incluiu em sua pesquisa uma análise sobre o impacto da inteligência artificial nos estudos. O levantamento, realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem como objetivo medir o conhecimento de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. Os resultados da edição de 2025 foram divulgados na terça-feira (8) e trouxeram dados inéditos sobre a relação entre o uso de IA e o aprendizado.

Os números mostram que pelo menos uma vez por semana quase metade dos alunos brasileiros, precisamente 48%, utiliza chatbots de inteligência artificial, como o ChatGPT, para estudar. A média da OCDE ficou em 46%, o que coloca o Brasil acima do padrão internacional. Entre os usos mais frequentes, destacam-se atividades como resumir leituras, realizar pesquisas preliminares e redigir redações. O dado que chamou a atenção, porém, foi outro: alunos que utilizam IA com frequência para essas finalidades obtêm, em média, 20 pontos a menos em ciências do que aqueles que não recorrem à tecnologia. Segundo a métrica da OCDE, essa diferença equivale a perder um ano inteiro de escolaridade em relação aos colegas.

Imagem complementar

Para compreender o que está por trás desses números, o físico pela USP e especialista em inteligência artificial pela Universidade de Stanford Roberto "Pena" Spinelli propôs uma leitura dividida em três perfis de estudantes. O primeiro grupo é formado por alunos que dizem nunca usar IA. De acordo com o especialista, esses estudantes não recorrem a atalhos tecnológicos e acabam exercitando o próprio senso crítico e a memorização. Como não delegam tarefas à inteligência artificial, tendem a apresentar um bom desempenho. O segundo grupo reúne os alunos que utilizam IA de forma intensa. Para Spinelli, esse uso elevado pode funcionar como uma espécie de tutor personalizado, capaz de esclarecer dúvidas com rapidez e oferecer novas formas de aprender. O terceiro grupo, considerado o mais preocupante pelo especialista, é composto por estudantes que adotam a IA de maneira esporádica, muitas vezes pedindo que a ferramenta faça o trabalho escolar por eles, sem revisão ou reflexão. Esse comportamento, segundo o especialista, pode representar o pior uso da tecnologia, pois o aluno delega seu pensamento e, ao chegar à prova, não consegue responder por conta própria.

Apesar desses riscos, o Pisa 2025 também revelou que os estudantes brasileiros usam IA acima da média da OCDE em duas categorias consideradas positivas pelo especialista: ajudar a aprender e realizar pesquisas preliminares sobre novos temas. No caso das pesquisas preliminares, a média do Brasil foi de 40%, contra 31% da OCDE. Fazer pesquisa preliminar em um chatbot significa utilizá-lo como ponto de partida, substituindo uma busca tradicional em mecanismos como o Google. Para Spinelli, esse tipo de uso pode ser benéfico, desde que o aluno não peça à ferramenta que redija diretamente o trabalho final.

PUBLICIDADE

O especialista também chamou a atenção para o fato de que o Brasil e o mundo vivem um momento de transição no uso da inteligência artificial na educação. Metade dos alunos já utiliza a tecnologia de alguma forma, enquanto a outra metade ainda não incorporou essas ferramentas à rotina de estudos. Spinelli lembrou que o brasileiro costuma ser um usuário precoce de novas tecnologias, o que torna ainda mais importante analisar os desafios inerentes a esse processo. Para ele, o caminho passa por entender como a IA pode ser usada de maneira proveitosa, evitando que os estudantes simplesmente transfiram para a máquina tarefas que deveriam contribuir para sua formação.

Os resultados do Pisa 2025 indicam que o impacto da inteligência artificial no aprendizado não pode ser avaliado de forma simplista. O uso frequente e bem direcionado pode oferecer benefícios reais, como acesso a um suporte personalizado fora da sala de aula, enquanto o uso esporádico e sem critério tende a comprometer o rendimento. A próxima edição do Pisa e os desdobramentos nos sistemas de ensino ao redor do mundo devem ajudar a esclarecer como alunos, professores e instituições podem tirar o melhor proveito dessa tecnologia em transformação.

PUBLICIDADE
Este post foi útil para você?

Leitura recomendada

💬 Comentários

Nenhum comentário ainda. Conte o que achou, tire uma dúvida ou discorde. Seja o primeiro!

Deixe seu comentário
O e-mail não aparece. Serve só para avisar quando responderem você.
Os comentários passam por aprovação antes de aparecer. Crie uma conta de leitor e, depois do primeiro aprovado, os próximos saem na hora.
Apoie o ConexãoTC

O ConexãoTC é independente e gratuito. Se as notícias fazem parte do seu dia, contribua com qualquer valor pelo PIX e ajude a manter o blog no ar.

QR code PIX para apoiar o ConexãoTC
Aponte a câmera do app do banco
Favorecido: Jean Dgardany C. Lima, editor do ConexãoTC
🗳️ O que você quer ler aqui?

Marque os assuntos que te interessam. Os mais pedidos viram os próximos artigos.

Leitores cadastrados têm as sugestões atendidas primeiro e recebem um aviso quando o artigo sai.
Fique por dentro

Os destaques do dia no seu e-mail, todo dia às 8h.

PUBLICIDADE