O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou neste sábado (5) que o Brasil vai ampliar os recursos destinados ao desenvolvimento de inteligência artificial adaptada à língua portuguesa. Em discurso realizado em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, ele classificou a construção de tecnologia própria como uma prioridade estratégica do país e defendeu a redução da dependência em relação às potências estrangeiras do setor.
"Vamos investir mais. Agora, nós vamos querer dominar essa história de inteligência artificial. Eu não quero ficar dependendo da China e nem dos Estados Unidos. Nós queremos inteligência artificial em português!", afirmou o presidente durante o evento.
A fala reforça um compromisso que já estava formalizado em política pública. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), programa oficial do governo federal, prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028 e estabelece, entre suas metas, a criação de modelos avançados de linguagem em português treinados com dados produzidos no país.
Modelos de linguagem de grande escala, conhecidos pela sigla LLM, são sistemas de aprendizado de máquina capazes de compreender e gerar texto, a mesma categoria de tecnologia usada por assistentes como o ChatGPT, da OpenAI. Esses modelos são treinados a partir de enormes volumes de dados, e o idioma e a origem desses dados influenciam diretamente o comportamento do sistema.
Dentro do PBIA, uma ação específica reserva R$ 1,1 bilhão para a construção e a curadoria de bases de dados nacionais e para o desenvolvimento de LLMs especializados em português. O documento oficial do plano define como meta a construção de um modelo robusto e seguro para o idioma.
Os objetivos declarados são reduzir a dependência tecnológica externa e adaptar os sistemas às características brasileiras. A proposta é que os modelos incorporem a diversidade cultural, social e linguística do país, algo que sistemas criados majoritariamente com dados em inglês não capturam com precisão.
A estratégia também depende de capacidade de processamento instalada dentro do território nacional. Em agosto, o governo anunciou um supercomputador dedicado à inteligência artificial, orçado em R$ 1,06 bilhão, que será instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, no Rio Grande do Norte.
De acordo com o projeto, o equipamento terá capacidade projetada para executar cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo. Universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e empresas poderão utilizá-lo para desenvolver e treinar sistemas de inteligência artificial.
Treinar modelos de linguagem exige grande poder computacional, geralmente fornecido por aceleradores gráficos como os fabricados pela NVIDIA, empresa líder mundial em processadores para inteligência artificial. Ao concentrar essa capacidade no país, o governo quer permitir que pesquisadores brasileiros desenvolvam seus modelos sem depender exclusivamente da estrutura computacional das grandes plataformas estrangeiras.
O supercomputador do Rio Grande do Norte integra uma infraestrutura mais ampla. O governo planeja adquirir mais de um equipamento do tipo e prevê transferência de tecnologia, desenvolvimento de software nacional e apoio direto a empresas brasileiras do setor de inteligência artificial.
A ênfase no português é um dos eixos centrais do plano. Os modelos deverão ser alimentados por bases nacionais justamente para incorporar as particularidades da língua, da legislação e da realidade brasileira. A iniciativa abrange não apenas o modelo em si, mas toda a infraestrutura de dados e de software necessária para treiná-lo e operá-lo dentro do país.
A declaração de Lula converte esse objetivo técnico em compromisso político explícito. Os R$ 23 bilhões já estavam previstos na estratégia nacional e a montagem da infraestrutura computacional havia sido iniciada antes do discurso deste sábado.
Com a fala em São José do Rio Preto, o presidente resumiu a ambição do governo em uma única direção: o Brasil pretende deixar de ser apenas usuário de modelos criados no exterior e passar a construir sistemas de inteligência artificial capazes de operar a partir do português e dos dados brasileiros.
O cumprimento das metas até 2028 e a operação efetiva do supercomputador em Macaíba serão os próximos indicadores concretos de avanço do plano. Até lá, o governo combina orçamento definido, infraestrutura em instalação e discurso presidencial apontando para o mesmo resultado: inteligência artificial em português e menor dependência tecnológica externa.