Como a Polícia Federal conseguiu recuperar mensagens apagadas de Vorcaro, mesmo as de visualização única
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça de retirar o sigilo do inquérito relacionado a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelou como a Polícia Federal conseguiu recuperar trocas de mensagens trocadas pelo WhatsApp entre o banqueiro e o ministro do STF Alexandre de Moraes, além de outras figuras políticas, mesmo nos casos em que os conteúdos haviam sido apagados ou enviados no modo de visualização única. O trabalho pericial reconstruiu o caminho completo das comunicações a partir do aparelho celular do empresário.
Segundo os relatórios da corporação, Vorcaro adotava uma espécie de dupla blindagem para dificultar a recuperação das mensagens enviadas a Moraes. O método consistia em redigir os textos no aplicativo de notas do celular, converter o conteúdo em imagem ou arquivo em formato PDF e, em seguida, enviar o arquivo pelo WhatsApp configurado para desaparecer após uma única abertura pelo destinatário. Aparentava ser uma proteção eficaz, mas deixava rastros que os peritos souberam seguir.
O ponto de entrada da investigação foi uma característica técnica dos próprios aparelhos. Mesmo que a nota original fosse apagada e a imagem enviada pelo aplicativo configurada para visualização única, o arquivo em PDF podia permanecer armazenado temporariamente na memória física do celular como vestígio da operação. Foram justamente esses resquícios que permitiram aos investigadores reconstituir o conteúdo que o banqueiro tentou manter em sigilo.
Para organizar e analisar o material extraído, a Polícia Federal utilizou o Indexador e Processador de Evidências Digitais, software forense conhecido pela sigla IPED e desenvolvido pela própria corporação. Foi com essa ferramenta que os agentes recuperaram a íntegra dos textos redigidos por Vorcaro e reconstruíram a sequência completa entre a criação das notas e o envio pelo aplicativo de mensagens.
A perícia estabeleceu ainda uma correlação temporal precisa entre as etapas do processo. Segundo o laudo, o intervalo entre a redação do texto e o envio da mensagem variava, em média, de 11 a 35 segundos. Ao todo, a Polícia Federal identificou 52 notas que seguiram esse mesmo padrão técnico. No relatório, a corporação afirmou que essa sequência ininterrupta de ações estabelece a ligação entre a geração da imagem e o seu posterior envio a um interlocutor específico.
Outro elemento decisivo para a investigação foram os registros de atividade das conversas, chamados de logs, que correspondem às informações sobre quando as mensagens foram enviadas e para quem. Esses dados podem ser armazenados e recuperados mesmo depois do apagamento do conteúdo. Com eles, o software forense é capaz de identificar o caminho do arquivo, o destinatário, a data e o tipo de documento, revertendo a lógica de quem tentou fazer o material desaparecer.
A corporação também conta com softwares especializados na extração completa de dados de aparelhos apreendidos, capazes de acessar informações mesmo em celulares bloqueados ou desligados, além de recuperar arquivos apagados. Entre as ferramentas usadas pelos peritos está um programa de extração de dados que permite visualizar simultaneamente a tela do aplicativo de mensagens, facilitando o cruzamento entre os vestígios recuperados e o histórico das comunicações.
No caso concreto, o aparelho analisado era um iPhone de Vorcaro. Como a perícia trabalhou sobre o telefone do próprio banqueiro, a Polícia Federal conseguiu identificar as mensagens enviadas por ele e reconstruir seu conteúdo a partir dos arquivos temporários, ainda que não tivesse acesso direto ao celular do destinatário. Entre os achados está o registro de que, em 17 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão do empresário, ele enviou exatamente cinco mensagens em modo de visualização única. Os peritos também identificaram Moraes como o primeiro destinatário de Vorcaro naquela comunicação.
O episódio mostra que recursos de privacidade como a visualização única e o apagamento de mensagens não garantem, por si só, o desaparecimento definitivo dos dados. Os vestígios deixados na memória física dos aparelhos, somados aos registros de envio recuperados pela perícia, permitiram à Polícia Federal reconstruir a íntegra de conversas que o dono do Banco Master procurou ocultar, material que agora integra o inquérito revelado pela decisão do ministro André Mendonça.