A revista americana Time divulgou a lista TIME100 AI, que reúne as cem personalidades mais influentes do mundo em inteligência artificial, e o Brasil aparece com quatro representantes: o executivo Cristiano Amon, o empreendedor Mike Krieger, a farmacêutica Ana Helena Ulbrich e a ativista Veronyka Gimenes. A seleção reconhece quem está moldando o desenvolvimento e a aplicação da tecnologia em escala global, avaliando não apenas avanços técnicos, mas também o impacto social, econômico e ético das ferramentas criadas.
O ranking é organizado em quatro categorias: Líderes, Inovadores, Formadores e Pensadores. Os brasileiros contemplados cobrem frentes distintas do setor, que vão de semicondutores e assistentes de IA conversacionais até a segurança de pacientes hospitalares e o combate ao discurso de ódio em plataformas digitais.
A presença nacional ao lado de nomes como Sam Altman, da OpenAI, Elon Musk e Jensen Huang, da NVIDIA, mostra como profissionais nascidos ou formados no Brasil ocupam posições de destaque em áreas estratégicas da economia global. A NVIDIA é uma das principais fabricantes de processadores usados em inteligência artificial, e a OpenAI é a empresa responsável pelo ChatGPT.
Na categoria Líderes está Cristiano Amon, CEO da Qualcomm, uma das maiores fabricantes de chips do mundo. Doutor em engenharia elétrica pela Unicamp, ele supervisiona o desenvolvimento dos processadores Snapdragon e a criação de soluções em semicondutores voltadas à inteligência artificial em smartphones, computadores e outros dispositivos inteligentes.
O trabalho de Amon ganha relevância em um momento em que a indústria busca executar modelos de IA diretamente nos aparelhos do dia a dia, reduzindo a dependência de centros de dados remotos. Essa abordagem, chamada de IA no dispositivo, é considerada estratégica para sustentar a expansão da tecnologia para fora da infraestrutura de nuvem, levando o processamento de modelos para o equipamento usado pelo consumidor.
Outro brasileiro em posição de comando é Mike Krieger, paulistano formado pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Ele ficou mundialmente conhecido como cofundador do Instagram, rede social que nasceu de um projeto chamado Burbn e foi vendida ao Facebook em 2012 por US$ 1 bilhão.
Atualmente, Krieger atua como diretor de produto da Anthropic, empresa de inteligência artificial criadora do assistente Claude, onde responde pela estratégia de experiência do usuário. Sob sua liderança, a companhia lançou o Claude Code, ferramenta voltada a desenvolvedores, e ampliou a integração do assistente com softwares externos, consolidando a presença do produto no cotidiano de profissionais de tecnologia.
A representatividade brasileira também aparece na aplicação da IA à saúde. A farmacêutica gaúcha Ana Helena Ulbrich é cofundadora da NoHarm.ai, iniciativa sem fins lucrativos que usa inteligência artificial para revisar prescrições médicas e cruzar dados clínicos em tempo real.
A tecnologia desenvolvida pela organização ajuda a prevenir falhas de dosagem e interações medicamentosas perigosas em mais de cinco milhões de receitas emitidas mensalmente por cerca de 200 hospitais espalhados pelo Brasil. O reconhecimento pela Time destaca um uso prático da inteligência artificial com efeito direto na segurança do paciente dentro do sistema de saúde do país.
Na categoria Pensadores, o Brasil tem Veronyka Gimenes, ativista conhecida como "Trava Hacker". Ela lidera a ONG Código Não Binário e é responsável pelo TybyrIA, modelo de código aberto criado para identificar discurso de ódio contra pessoas LGBTQIA+ em conteúdo em português.
O modelo desenvolvido pela organização serviu de base para uma ação judicial de US$ 20 milhões movida contra Meta, Google, X e ByteDance, empresas acusadas de permitir a disseminação desse tipo de conteúdo em suas plataformas. O caso coloca a produção técnica brasileira no centro de um dos debates mais sensíveis da era da IA: a responsabilidade das plataformas digitais pelo material que hospedam.
As trajetórias dos quatro premiados ilustram caminhos distintos dentro do mesmo campo. Enquanto Amon atua na infraestrutura física que sustenta a computação de modelos de IA, Krieger trabalha na camada de produto que define como profissionais e usuários interagem com assistentes inteligentes. Ulbrich e Gimenes, por sua vez, representam a aplicação da tecnologia a problemas concretos da sociedade, com foco em saúde pública e na proteção de grupos vulneráveis.
Para o mercado brasileiro de tecnologia, o reconhecimento tem valor simbólico e prático. Sinaliza que profissionais formados no país alcançam cargos de decisão em empresas globais e que iniciativas nascidas localmente escalam para níveis de impacto internacional.
A lista da Time também funciona como termômetro do setor. Ao incluir ativistas e especialistas em impacto social ao lado de executivos de grandes corporações, a publicação reflete a compreensão de que a inteligência artificial deixou de ser um tema exclusivamente técnico para se tornar um campo disputado também por questões éticas, regulatórias e de direitos. Os quatro nomes brasileiros mostram que o país participa dessa disputa em múltiplas frentes, da fabricação de chips à moderação de conteúdo, passando por assistentes comerciais e sistemas de apoio à decisão médica.