A Nvidia fechou um acordo de US$ 6 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 30,9 bilhões, com a startup Poolside para licenciar sua tecnologia e absorver a maior parte de sua equipe de engenharia. O objetivo central da operação é acelerar o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial de pesos abertos capazes de disputar espaço com os sistemas criados na China. A decisão representa uma mudança de postura da empresa, que até agora concentrava sua atuação na venda de processadores para os grandes laboratórios de IA.
Com o acordo, a Nvidia se aproxima de uma concorrência direta com a OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, e com a Anthropic, criadora do Claude. As duas companhias figuram entre os principais compradores de chips da fabricante, o que cria uma dinâmica incomum de mercado: fornecedora e clientes passam a atuar no mesmo segmento de criação de modelos. A dimensão competitiva da operação foi divulgada pelo jornal The Wall Street Journal.
O contexto por trás do movimento é a corrida global pela liderança em inteligência artificial, cada vez mais marcada pela disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Sistemas de pesos abertos criados por empresas chinesas ganharam espaço nos últimos meses e aumentaram a pressão sobre as companhias americanas, que precisam reagir para manter a posição.
O pacote inclui um investimento de US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,16 bilhões, na Poolside, que tinha avaliação prévia de US$ 12 bilhões, ou R$ 62 bilhões. Mais de 100 funcionários da startup, em sua maioria engenheiros, serão incorporados à Nvidia. O grupo vai trabalhar no Nemotron, projeto de modelos de pesos abertos apresentado pela companhia em 2023.
A Poolside foi fundada em 2023 por Eiso Kant e por Jason Warner, ex-CTO do GitHub, plataforma de hospedagem de código usada por desenvolvedores do mundo inteiro. A equipe de liderança também conta com Margarida Garcia. Os três nomes não irão para a Nvidia e continuarão envolvidos em projetos de pesquisa que ainda não foram divulgados.
Os modelos de pesos abertos se diferenciam dos sistemas fechados pela possibilidade de download e modificação por qualquer usuário. Essa característica permite adaptar a tecnologia a diferentes necessidades e, em geral, operar com custos menores. Para o mercado corporativo, o modelo representa uma alternativa a serviços fechados, com maior controle sobre dados e personalizações.
O interesse da Nvidia pelo segmento cresceu depois do avanço dos sistemas chineses. O lançamento do primeiro modelo de pesos abertos de baixo custo da DeepSeek, empresa de inteligência artificial sediada na China, em janeiro de 2025, foi um dos momentos que elevaram a pressão sobre as empresas americanas. Outros projetos, como o Kimi, da Moonshot, e o GLM, da Z.AI, vêm se aproximando do desempenho dos modelos criados nos Estados Unidos.
Em março, a Nvidia criou a Nemotron Coalition, coalizão formada com empresas como Mistral, Thinking Machines Lab e Perplexity para compartilhar dados, conhecimento e recursos computacionais. A iniciativa busca acelerar o ecossistema de IA aberta no Ocidente e distribuir os custos de desenvolvimento entre diferentes participantes.
Jensen Huang, CEO da Nvidia, defendeu a estratégia em carta publicada na rede X. Na avaliação do executivo, a liderança americana em inteligência artificial dependerá da construção de um ecossistema aberto capaz de alcançar diferentes setores da economia, e não apenas de modelos proprietários controlados por poucas empresas.
A situação financeira da Poolside também aproximou as duas companhias. No fim de 2025, a startup tentou levantar US$ 2 bilhões, cerca de R$ 10,3 bilhões, em apenas seis semanas para pagar por um cluster de computação com 40 mil servidores GB300. A captação não foi concluída. Em mensagem aos acionistas, os fundadores admitiram o fracasso com a frase: não fechamos a tempo e perdemos o cluster.
O episódio expôs um problema adicional: sem novos aportes, a Poolside poderia ficar sem capacidade computacional já no ano seguinte. A Nvidia tinha exatamente a infraestrutura e o capital necessários para eliminar essa limitação, o que tornou o acordo atrativo para os dois lados.
Pouco antes do fechamento da operação, a Poolside havia lançado o Laguna S, modelo que ganhou popularidade entre os sistemas de pesos abertos no Ocidente. A incorporação da tecnologia e da equipe responsável pelo projeto reforça a aposta da Nvidia em uma linha própria de modelos, agora com respaldo de mão de obra especializada.
A operação cria uma posição delicada para a fabricante. OpenAI e Anthropic seguem entre seus grandes clientes de chips, mas também desenvolvem modelos que podem disputar mercado diretamente com o Nemotron. Enquanto isso, a Nvidia trabalha em uma versão mais avançada do projeto, que pode superar 1 trilhão de parâmetros, escala já alcançada por alguns sistemas chineses.
Com a Poolside, a Nvidia deixa de atuar apenas nos bastidores da corrida da inteligência artificial. A companhia passa a disputar também o desenvolvimento dos modelos que dependem de seus próprios processadores, ampliando sua presença em toda a cadeia da tecnologia.
Para empresas e desenvolvedores que dependem de sistemas adaptáveis e de custos menores de operação, a consolidação de uma linha americana de pesos abertos amplia as alternativas em um mercado até agora dominado por opções fechadas e por soluções vindas da China. O próximo capítulo da disputa dependerá do desempenho do Nemotron com a equipe da Poolside a bordo.