PUBLICIDADE

Febraban Tech 2026: Escalar Deixou de Ser Suficiente e o Crédito Responsável Vira o Novo Jogo do Setor Financeiro

25/08/2026
8 visualizações
4 min de leitura
Imagem principal do post

Febraban Tech 2026 coloca o crédito responsável no centro do debate financeiro no Brasil

A edição de 2026 do Febraban Tech, principal evento de tecnologia do setor financeiro brasileiro, marcou um ponto de virada ao colocar o crédito responsável como tema central das discussões. O crescimento do encontro foi expressivo, com expansão de 71% na área ocupada, mudança para o Distrito Anhembi, em São Paulo, e uma programação organizada em 13 trilhas temáticas. Para além dos números que demonstram porte, o conteúdo debatido revelou uma mudança profunda de foco: o setor passou a discutir, de forma explícita, a qualidade do crédito oferecido, e não apenas a tecnologia por trás dos serviços financeiros.

Imagem complementar

A presença de setores como telecomunicações, energia, agronegócio, mobilidade e indústria dividindo o palco com bancos e empresas de tecnologia financeira demonstrou que os desafios de conectividade, dados e segurança deixaram de ser uma preocupação isolada de um único segmento da economia. Esse novo desenho do evento reflete a forma como os serviços financeiros se espalharam por diferentes atividades produtivas, criando demandas comuns entre participantes que antes atuavam em mercados completamente distintos.

PUBLICIDADE

O tom do debate foi definido logo na abertura, quando o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, escolheu tratar do uso inadequado do crédito como tema inicial de sua fala. A mensagem dirigida a quem constrói produtos financeiros foi direta: apenas escalar as operações deixou de ser suficiente, e é preciso crescer com responsabilidade. Esse posicionamento da autoridade monetária sinaliza uma nova fase para o mercado, na qual a forma de conceder crédito passa a ser avaliada com o mesmo rigor que a velocidade de inovação.

Os dados do Pix apresentados no evento ilustram a dimensão alcançada pelo sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. Foram 80 bilhões de transações realizadas em 2025, R$ 35 trilhões movimentados e 900 milhões de chaves cadastradas. A adesão representou um avanço concreto de inclusão financeira, inclusive entre a população de baixa renda: 74% dos adultos inscritos no CadÚnico, o cadastro do governo federal utilizado para programas sociais, já possuem uma chave Pix registrada.

O próprio Banco Central, entretanto, fez questão de apresentar ao lado desses números o seu contraponto mais desconfortável. Dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito no país, 52,8 milhões carregam dívidas no rotativo, modalidade em que o valor não pago acumula juros elevados, ou no parcelamento com cobrança de juros. A leitura apresentada no evento é de que o Brasil já resolveu o problema do acesso ao sistema financeiro e agora precisa resolver a qualidade do crédito disponível. A questão deixou de ser apenas quem consegue entrar no sistema, e passou a ser qual produto essa pessoa encontra quando chega lá.

A apresentação da autoridade monetária detalhou quatro frentes em que o crescimento do crédito vem acompanhado de deterioração do risco: o consignado privado para trabalhadores com carteira assinada, o cartão de crédito, o crédito pessoal não consignado e o financiamento de veículos. Em todas elas, o saldo concedido e a inadimplência avançam ao mesmo tempo, e a ausência de garantia aparece como o fator que mais encarece as operações. Galípolo citou taxas em torno de 27% ao ano em linhas com garantia, enquanto modalidades sem essa proteção chegam a mais de 140%.

Esse contraste entre taxas foi apontado como um guia prático para quem projeta sistemas de decisão de crédito, processos de cadastramento digital e modelos de concessão. Os dados indicam com precisão onde a engenharia de produto consegue reduzir risco de forma efetiva: na estrutura de garantia oferecida, na adequação entre o perfil do cliente e a linha contratada e no monitoramento contínuo da carteira. A conclusão apresentada é que o crédito responsável começa no desenho do produto, e não na etapa de cobrança das dívidas.

O recado mais relevante do primeiro dia do evento tratou de provisionamento, que consiste na reserva de recursos que cada instituição precisa manter para cobrir perdas potenciais. Galípolo resumiu a nova prioridade regulatória ao afirmar que cada instituição precisa estar provisionada para o risco que efetivamente assume ao oferecer um serviço. A orientação desloca a conversa do setor de quem lança produtos mais rapidamente para quem lança com mais responsabilidade, estabelecendo um novo critério de competitividade.

Esse movimento foi avaliado de forma positiva pela autora da análise, que atua na área de marketing de uma empresa de infraestrutura financeira. Na sua avaliação, a concorrência saudável defendida pelo Banco Central só se torna possível quando todos os participantes do mercado operam sob as mesmas exigências de segurança e adequação. O crédito responsável deixa de ser um discurso institucional e passa a ser um requisito de mercado, com relevância comparável à velocidade de lançamento e à experiência do usuário.

O Febraban Tech 2026 começou mostrando um setor financeiro maior, mais plural e mais consciente da própria escala de atuação. Depois de provar, com o Pix, que consegue construir infraestrutura de alcance nacional, o desafio colocado agora é demonstrar que essa mesma base é capaz de entregar crédito responsável para quem realmente dele precisa. Esse é, segundo a análise apresentada, o debate que deve definir os próximos anos da inovação financeira brasileira.

PUBLICIDADE

Leitura recomendada

Comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!