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Ciência de elite, capital escasso: o paradoxo que trava a biotecnologia brasileira na corrida global de US$ 3,8 trilhões

22/08/2026
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Ciência brasileira de ponta esbarra na ausência de um ecossistema de negócios à altura, avalia executivo do setor

A participação na BIO International Convention, o maior encontro global da indústria de biotecnologia, realizado na Califórnia, consolidou no cofundador e diretor-executivo da Vyro Bio, o doutor Luiz Caires, a convicção de que a biotecnologia deixou de ser apenas um capítulo da ciência. Segundo ele, o setor se tornou peça central da geopolítica, da soberania tecnológica e de uma das fronteiras mais decisivas da economia global. Os números sustentam essa leitura: segundo a consultoria Grand View Research, o mercado internacional de biotecnologia já movimenta mais de US$ 1,68 trilhão e deve ultrapassar US$ 3,8 trilhões até 2035.

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Poucos setores conseguem reunir, na mesma equação, ciência de vanguarda e retorno financeiro, e o Brasil reúne condições reais para ocupar um lugar de destaque nesse cenário. Para Caires, a pergunta que se coloca é se o país vai ajudar a escrever essa história ou apenas observá-la sendo escrita em outro idioma. Os Estados Unidos concentram o maior e mais avançado ecossistema de biotecnologia do planeta, com liderança incontestável. O que mais chamou a atenção do executivo na convenção, porém, não foi a qualidade da ciência americana, que ele afirma encontrar com a mesma força em laboratórios brasileiros todos os dias.

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Na avaliação dele, o que separa os dois cenários é a integração. Lá, pesquisadores, investidores, executivos, universidades, centros médicos e a indústria farmacêutica funcionam como partes de um mesmo motor, voltado para transformar descoberta científica em soluções capazes de mudar vidas. Esse motor é alimentado por um volume de capital que o Brasil ainda não tem. Conforme dados da National Venture Capital Association e da PitchBook citados no artigo, os Estados Unidos contam com cerca de 700 fundos de capital de risco especializados em ciências da vida e biotecnologia, que investiram mais de US$ 30 bilhões no setor em 2024.

No Brasil, esse número cai para menos de 20 fundos dedicados ao tema, com aportes estimados em US$ 500 milhões no mesmo período. Além disso, os investimentos brasileiros não são destinados integralmente às empresas de biotecnologia. Por teses que defendem a mitigação de riscos, a maioria desses recursos contempla também segmentos correlatos, como tecnologias voltadas à saúde. A consequência aparece diretamente na quantidade de empresas que cada ecossistema consegue sustentar: cerca de 800 empresas emergentes brasileiras de biotecnologia, contra mais de 14 mil americanas.

Mesmo com essa distância de capital, o Brasil segue sendo, na visão do executivo, um território raro para o setor. O país tem a biodiversidade mais rica do mundo, um custo de desenvolvimento científico altamente competitivo em escala global e universidades de peso internacional, como a USP, a Unicamp e a UFMG. Instituições como a Fiocruz e o Butantan sustentam pesquisas de altíssimo nível, com apoio de organizações como FAPESP, CNPq, FINEP, EMBRAPII, BNDES e ApexBrasil. A competência científica está posta; o que falta é um sistema capaz de conectá-la a capital, infraestrutura e velocidade na escala dos grandes polos mundiais de inovação.

O país vem evoluindo, reconhece Caires, embora haja ainda um bom caminho a percorrer. O Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde, do Ministério da Saúde, é apontado como um exemplo dos esforços para fomentar os setores de biotecnologia, genômico e de biofabricação. A iniciativa atua no chamado "vale da morte" da inovação, expressão que descreve o processo entre a pesquisa de laboratório e a oferta do produto final. O projeto está alinhado ao Programa de Inovação Radical da Abiquifi, entidade que faz a articulação entre indústria, governo e academia para promover um ambiente favorável à inovação.

É justamente essa lacuna que novos modelos de construção de empresas especializados em biotecnologia vêm procurar preencher. Essas iniciativas aproximam pesquisadores, empreendedores e investidores, oferecendo capital, infraestrutura, gestão e conexões estratégicas para transformar pesquisas acadêmicas em empresas capazes de competir globalmente. A Vesper Bio é citada como um exemplo brasileiro desse movimento, demonstrando como a integração entre ciência e empreendedorismo pode acelerar a criação de novas empresas de base tecnológica, com tecnologias proprietárias de potencial global.

Os desafios, entretanto, continuam reais, da dependência de insumos importados a um ambiente regulatório ainda complexo, e o caminho até a validação de uma tecnologia brasileira costuma ser mais longo do que deveria. Ainda assim, o executivo considera o percurso viável e, à medida que essas empresas amadurecem, a internacionalização se torna uma decisão estratégica, pois abre acesso ao ecossistema global necessário para acelerar crescimento, consolidação e projeção internacional.

Para Caires, falta, sobretudo, uma ruptura cultural. Por décadas, o Brasil tratou a biotecnologia como assunto estritamente científico, quando ela carrega também política industrial, soberania tecnológica, produção de capital intelectual e estratégia econômica de longo prazo, com potencial de se firmar como uma nova vertical inteira da economia nacional, ao lado do agronegócio e da energia. Ele lembra que existem diversos tipos de capital — financeiro, humano, conhecimento técnico, tempo, rede de contatos e tecnológico —, todos com papel na construção do ecossistema. O país já possui, em menor ou maior escala, grande parte desses recursos, mas é preciso refino, melhoria e intensidade de todos eles.

O futuro da biotecnologia ainda está sendo escrito, conclui o autor. Para que empresas brasileiras ocupem espaço de protagonismo nesse cenário, será preciso conectar talento, ciência, investimento e visão de longo prazo, convertendo conhecimento em impacto econômico, inovação em desenvolvimento real e ciência em qualidade de vida. O Brasil já demonstrou inúmeras vezes que é capaz de produzir ciência de excelência, e o próximo passo é construir um ambiente que transforme essa excelência em empresas globais, propriedade intelectual, empregos qualificados e soluções capazes de beneficiar milhões de pessoas. Se as escolhas certas forem feitas agora, a próxima grande revolução da biotecnologia poderá começar em um laboratório brasileiro e alcançar o mundo.

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