Toyota Mobility Foundation inaugura hub de mobilidade ativa em São Carlos e define primeiras startups aceleradas
A Toyota Mobility Foundation (TMF) expandiu o programa Mobility Unlimited Hub para a América Latina e inaugurou sua nova unidade no ONOVOLAB, hub de inovação localizado em São Carlos, no interior paulista. A iniciativa, criada em parceria com a MaRS Discovery District em Toronto, no Canadá, já definiu as primeiras startups de tecnologia assistiva que participarão da aceleração. A escolha da cidade reafirma o papel do município como polo científico e tecnológico dentro do país.
A TMF é uma organização sem fins lucrativos fundada em agosto de 2014 pela Toyota Motor Corporation, mas que atua de maneira independente da montadora, com estrutura e decisões próprias. Seu foco está no conceito de mobilidade ativa, ou seja, tecnologias que ampliam a autonomia e a participação social de pessoas com deficiência, mobilidade reduzida ou em processo de envelhecimento, indo além do transporte veicular tradicional.
Segundo William Chernicoff, gerente de programa dos Mobility Unlimited Hubs na TMF, a decisão de levar o programa ao Brasil se apoia na confiança construída com a experiência da unidade canadense. "Temos a habilidade e o conhecimento para replicar. E a América Latina é uma boa oportunidade", afirma. Para ele, o país já reúne boa parte dos elementos necessários para sediar a iniciativa, incluindo mão de obra qualificada, universidades e infraestrutura.
O estado de São Paulo foi definido como sede a partir de critérios como acesso a financiamento e a uma rede de colaboradores com experiência suficiente para operar o hub localmente, já que a fundação não conduz essa etapa sozinha. A definição da cidade, por sua vez, teve lastro acadêmico, segundo Leandro Palmieri, CEO e cofundador do ONOVOLAB. Ele destaca que São Carlos concentra universidades, instituições de ensino técnico e centros de pesquisa, além de reunir a maior quantidade de doutores por habitante da América Latina.
"Além da USP e UFSCar, temos um forte ecossistema com ETEC, FATEC, Instituto Federal e centros de desenvolvimento científico", diz Leandro. Ele observa que a presença de iniciativas voltadas à mobilidade e à tecnologia assistiva vem se fortalecendo na cidade. Em abril, o Comitê Paralímpico Brasileiro fechou parceria com a Universidade Federal de São Carlos para criar um centro de pesquisa em tecnologias paralímpicas no município. Na avaliação do executivo, até então não havia canais como o Mobility Unlimited Hub para dar vazão a projetos de tecnologias ativas nas universidades.
O ONOVOLAB opera como hub de inovação em São Carlos há quase nove anos e, além de ceder a estrutura física do programa, vai conectar a unidade a outros polos de inovação do Brasil e da América Latina. Cada turma da aceleração reunirá entre nove e dez startups por até 24 meses, com foco em soluções em estágio avançado de maturidade tecnológica, classificadas entre os níveis 6 e 9 da escala TRL. O programa prevê um bloco comum a todas as participantes e apoio personalizado, que pode incluir capacitação em pitch e suporte à captação de recursos.
A iniciativa não aporta capital diretamente nas empresas nem exige participação societária em contrapartida. "O investimento não é financeiro, e sim em estrutura, infraestrutura e rede de mentores", explica Leandro. A equipe de mentores também ajudará as startups a buscar financiamento externo ao longo da aceleração, por meio de programas e instituições como Fapesp, Embrapii e BNDES Garagem. Já o custeio do próprio programa vem inicialmente de recursos filantrópicos da TMF, com a intenção de somar outras fontes, incluindo aportes governamentais, ao longo do tempo.
"O objetivo é entregar valor para as pessoas com deficiência, com foco em volume de vendas e na entrega dos serviços que as startups têm potencial para oferecer", afirma Chernicoff. Apesar de a primeira turma ter maioria de empresas brasileiras, o programa não se restringe ao país e prevê atrair companhias de outras nações latino-americanas nos próximos ciclos. A fundação aposta na conexão entre os hubs de Toronto e São Carlos para apoiar processos de internacionalização em ambas as direções.
A unidade canadense já tem casos de startups que passaram pela aceleração e hoje adaptam seus produtos ao mercado brasileiro, um caminho que envolve desafios como barreiras de idioma, regulação da Anvisa e outras certificações locais. A SmartJob, organização com experiência em financiamento, é uma das parceiras desse processo e ajuda a conectar fundos norte-americanos a startups latino-americanas. Para Chernicoff, essa troca não significa simplesmente replicar uma solução de um mercado em outro, já que cada país tem cultura e economia próprias e precisa desenvolver soluções adequadas à sua realidade.
As nove empresas selecionadas para o primeiro ciclo refletem a amplitude do conceito de mobilidade ativa. O grupo inclui soluções assistivas como a Steadiwear, voltada ao controle de tremores associados ao Parkinson; a Livox (Agora Eu Consigo), focada em comunicação acessível; e a See U, destinada a pessoas com deficiência visual. Também entram tecnologias aplicadas à saúde pública e à segurança urbana, como o sistema de monitoramento de idosos da Cuide Me (ABG Soluções) e a solução de proteção no transporte público da Super Nina.
Completam a turma as startups Symbios, GiveMove, LIMBX e Therafy (Explorer Tecnologia), dedicadas à reabilitação funcional, motora e neuropsicológica, com atuação em hospitais e clínicas. Para o próximo ciclo, Leandro espera um número ainda maior de inscritos e adianta que o ONOVOLAB também pretende apoiar empresas em estágios anteriores ao nível 6 da escala TRL, preparando-as para edições futuras do programa. Na visão dele, a ambição vai além da aceleração: a iniciativa acende uma vocação na cidade para transformar São Carlos em referência latino-americana em mobilidade humana.