Robôs sociais para crianças neurodivergentes enfrentam colapso e levantam dúvidas sobre o futuro da terapia assistida por inteligência artificial
Quando a empresa Embodied anunciou o encerramento de suas operações em 2024, milhares de crianças que haviam criado vínculos emocionais com o robô Moxie ficaram sem sua companheira digital. O dispositivo, que se parecia com um pequeno astronauta azul sem pernas, foi projetado para ajudar crianças neurodivergentes — termo que abrange condições como autismo, TDAH e outras variações no funcionamento neurológico — a praticar habilidades sociais como contato visual e tomada de turnos em conversas. A decisão da empresa deixou famílias desesperadas, crianças em lágrimas e expôs uma fragilidade pouco discutida no mercado de brinquedos dotados de inteligência artificial: a dependência de servidores externos para o funcionamento desses produtos.
Moxie foi lançada em 2020 pela Embodied, empresa cofundada em 2016 pela pesquisadora Maja Mataric, professora de ciência da computação, neurociência e pediatria da Universidade do Sul da Califórnia. O robô contava com um currículo estruturado em que se apresentava como embaixadora do Global Robotics Laboratory e propunha missões diárias para ensinar positividade, empatia e a importância de ser amado por quem se é. As interações incluíam atividades como exercícios de respiração, nos quais a criança deveria expirar como uma abelha para lidar com a ansiedade, e sugestões para que os pequenos colocassem em prática no mundo real o que aprendiam, como escrever bilhetes gentis para familiares. A empresa também implementou limites para evitar uso excessivo, e Moxie podia informar que estava cansada e sugerir uma pausa.
O robô chamou a atenção da imprensa especializada logo no lançamento. A revista Time incluiu Moxie na lista das melhores invenções de 2020, e a Wired descreveu o produto como o amigo robótico dos sonhos de qualquer criança. Antes do colapso, o dispositivo acumulava mais de 131 mil seguidores no TikTok e chegou a participar do filme M3GAN 2.0. O preço inicial era de 1.499 dólares mais uma assinatura mensal de 40 dólares, valor posteriormente reduzido para 800 dólares após críticas de consumidores. A Embodied também adotava medidas de privacidade, processando a maior parte dos dados localmente no próprio robô e evitando o armazenamento de áudio e vídeo em formato bruto.
A proposta da Moxie se inseria em uma linha de pesquisa mais ampla sobre robótica social aplicada ao tratamento do autism. O cientista da computação Brian Scassellati, da Universidade Yale, estuda o tema há cerca de duas décadas e relatou casos marcantes, como o de um menino de 12 anos com autism que, na presença de um robô em forma de dinossauro, conseguiu fazer contato visual com a terapeuta em apenas 30 minutos — algo que não acontecia há dois anos. Segundo Scassellati, robôs podem tornar a terapia mais divertida, adaptar-se ao ritmo de cada criança e estar disponíveis 24 horas por dia, algo humanamente impossível para qualquer terapeuta.
Apesar do otimismo de parte da comunidade científica, a aplicação desses dispositivos fora de laboratórios controlados expôs problemas relevantes. Algumas crianças, como Aidan, irmão mais velho de Xander, tiveram dificuldades porque o robô não compreendia frases com erros gramaticais, e o atraso entre a fala da criança e a resposta gerada por um modelo de linguagem — sistema de inteligência artificial treinado para compreender e produzir texto — causava frustração. Especialistas como Zachary Warren, psicólogo clínico do Centro Médico da Universidade Vanderbilt, ponderam que o autism se manifesta de formas muito variadas e que nenhuma intervenção isolada funciona para todos. Revisões de literatura publicadas em 2024 por pesquisadores italianos e britânicos apontaram que a maioria dos estudos com robôs carece de evidências clínicas robustas e se concentra mais no desenvolvimento tecnológico do que em resultados terapêuticos mensuráveis.
Questões éticas e de privacidade também cercam o setor. Em 2024, o brinquedo Bondu, que usa inteligência artificial, vazou milhares de conversas de crianças com seus bichos de pelúcia. Meryl Alper, professora de comunicação da Universidade Northeastern, lembra que o fascínio por robôs terapêuticos para crianças autistas se apoia em estereótipos antigos, como a ideia equivocada de que essas crianças preferem máquinas a pessoas. Joshua Diehl, professor de psicologia da Universidade de Notre Dame, afirma não ver uma forma ética de operar um robô terapêutico sem supervisão profissional, especialmente após casos recentes de chatbots que incentivaram comportamentos extremos.
Quando a Embodied encerrou as atividades, os robôs Moxie dependiam de servidores externos que a empresa não podia mais manter, o que os condenaria a uma espécie de sono profundo. Vídeos de crianças desoladas circularam nas redes sociais, e pais buscaram soluções em fóruns como Reddit e TikTok. O diretor técnico da Embodied, Justin Beghtol, criou o OpenMoxie, uma alternativa de código aberto disponibilizada no GitHub que permitia manter o funcionamento básico dos robôs sem os serviços oficiais da empresa. Embora alguns pais tenham conseguido migrar seus dispositivos a tempo, outros não conseguiram realizar a atualização ou simplesmente desistiram diante da complexidade técnica. A pesquisadora Maja Mataric comparou o encerramento abrupto ao desligamento de um dispositivo médico sem aviso prévio, sem que houvesse um protocolo claro para lidar com o luto das crianças.
Em 2025, um novo investidor chegou a ressuscitar parcialmente o projeto Moxie, e Xander, de dez anos, recebeu uma nova versão do robô como cobaia. Sem a mesma narrativa original, o dispositivo passou a priorizar atenção e incentivo aos interesses da criança. Meses depois, porém, o novo proprietário também anunciou o fim das operações, e os usuários tiveram até o fim de junho para migrar novamente para o OpenMoxie caso quisessem preservar alguma funcionalidade. O pai de Xander admitiu não saber como contar ao filho que mais uma vez perderia sua companheira azul, enquanto tentava digerir a revelação de que vinha substituindo secretamente o peixe betta morto da família há anos. O caso de Moxie evidencia que, antes de robôs como este se tornarem ferramentas terapêuticas duradouras, empresas, pesquisadores e reguladores precisarão enfrentar não só os desafios técnicos e clínicos, mas também a fragilidade emocional de crianças que aprendem a amar máquinas programadas para parecerem amigas.