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Pesquisadores militares chineses usam IA dos EUA para treinar sistemas de defesa

05/08/2026
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Institutos de pesquisa ligados ao Exército de Libertação Popular, força armada da China, vêm utilizando modelos de inteligência artificial norte-americanos — como o GPT, da OpenAI, e o Claude, da Anthropic — para desenvolver tecnologia militar própria. A prática foi revelada por uma análise da agência de notícias Reuters, que examinou mais de 80 artigos acadêmicos e patentes chinesas em colaboração com a Jamestown Foundation, organização norte-americana especializada em estudos sobre segurança e política.

A descoberta evidencia que as restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de tecnologias de inteligência artificial para a China podem estar sendo contornadas por meio de uma técnica conhecida como destilação. O método consiste em usar as respostas geradas por um modelo de IA avançado para treinar um modelo menor e especializado, que depois pode ser executado localmente, sem depender da enorme capacidade computacional exigida pelos sistemas mais sofisticados.

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Segundo Sunny Cheung, investigador da Jamestown Foundation que analisou mais de 60 dos artigos acadêmicos identificados, replicar apenas a resposta correta de um modelo é relativamente simples. O que os pesquisadores ligados às forças armadas chinesas têm tentado extrair, no entanto, é algo mais valioso: o raciocínio por trás dessas respostas. Esse tipo de conhecimento, custoso e proprietário, é o elemento que permite transferir capacidades complexas dos modelos ocidentais para sistemas menores e totalmente controláveis em ambiente doméstico.

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Os casos documentados pela investigação da Reuters abrangem aplicações em áreas distintas, que vão da guerra cibernética ao reconhecimento de alvos em operações militares simuladas. Uma unidade de guerra cibernética do Exército de Libertação Popular, identificada como Unidade 96941, utilizou o GPT-3.5, modelo da OpenAI lançado em 2022, para processar e resumir código-fonte militar sensível. A partir desses resumos, os pesquisadores treinaram um modelo próprio, evitando assim expor dados confidenciais diretamente a sistemas de terceiros.

Em outro caso documentado, pesquisadores de uma universidade chinesa com vínculos com a indústria de armamentos recorreram ao Claude 3 Haiku, modelo compacto da Anthropic, empresa de inteligência artificial fundada por ex-funcionários da OpenAI, para gerar dados sintéticos destinados ao treinamento de um sistema de classificação de conteúdos voltado à monitorização de redes sociais.

A Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China aplicou a destilação para reduzir um modelo de processamento de imagem. O objetivo foi permitir que drones analisem vídeo em tempo real para navegação e definição de alvos mesmo sem comunicações ativas com centros de comando. Já a Academia de Ciências Militares chinesa adotou abordagem semelhante em um modelo de reconhecimento de alvos testado em operações marítimas simuladas, que envolveram drones, navios e submarinos não tripulados.

A revelação surge em um momento diplomaticamente delicado, anterior a conversações programadas entre os Estados Unidos e a China sobre governança e segurança em inteligência artificial. O governo norte-americano acusa entidades chinesas de usar a destilação para extrair capacidades dos modelos desenvolvidos por empresas dos EUA, contornando os controles de exportação e violando direitos de propriedade intelectual.

Por sua vez, o governo chinês rejeita as acusações e as classifica como uma forma de hegemonia tecnológica por parte de Washington. Pequim argumenta ainda que empresas norte-americanas recorrem a práticas semelhantes de destilação em suas próprias atividades de pesquisa e desenvolvimento.

A Anthropic, criadora do Claude, informou que não oferece acesso comercial ao seu modelo na China nem para empresas controladas pelo governo de Pequim. A empresa afirmou também manter sistemas de detecção de violações de suas políticas de uso. Em comunicado, a Anthropic alertou que modelos destilados podem perder as salvaguardas de segurança presentes no sistema original, permitindo que capacidades sensíveis acabem em modelos fora de seu controle.

A própria investigação da Reuters identificou artigos acadêmicos nos quais cientistas militares chineses estudam a destilação como uma potencial vulnerabilidade de seus próprios sistemas de inteligência artificial. Isso indica que a preocupação com o uso indevido dessa técnica não é exclusiva das empresas ou do governo dos Estados Unidos, mas também objeto de análise dentro da própria comunidade de defesa chinesa.

O episódio coloca em evidência um desafio estrutural para a regulamentação de modelos de inteligência artificial de código aberto ou amplamente acessíveis. Diferente de tecnologias materiais, como semicondutores avançados — cuja exportação pode ser bloqueada fisicamente —, os modelos de linguagem podem ser acessados remotamente, e seu conhecimento transferido por meio de técnicas como a destilação, sem que o fornecedor original tenha controle efetivo sobre o uso final.

A eficácia das sanções e dos embargos tecnológicos dos EUA contra a China depende, portanto, não apenas de restrições comerciais, mas da capacidade de monitorar e limitar o acesso remoto a modelos de IA. Enquanto as barreiras de exportação tradicionais continuam em vigor, casos como os revelados pela Reuters demonstram que elas podem ser insuficientes para impedir a transferência de conhecimento técnico para nações adversárias.

Para as empresas norte-americanas de inteligência artificial, o cenário cria pressão adicional para desenvolver mecanismos que impeçam o uso não autorizado de seus modelos, como sistemas mais robustos de detecção de destilação e restrições de acesso baseadas em geolocalização. Ao mesmo tempo, essas empresas precisam equilibrar a abertura de suas plataformas para fins de pesquisa e desenvolvimento comercial com o risco de que suas tecnologias sejam aproveitadas para aplicações militares por governos estrangeiros.

A discussão sobre governança global de inteligência artificial tende a ganhar maior complexidade a partir de casos como este. A tensão entre inovação aberta e controle de segurança nacional coloca os Estados Unidos e a China em lados opostos, e o desfecho desse debate pode redefinir as regras de acesso e uso de modelos de IA em escala internacional.

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