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China cria nova elite bilionária com IA e semicondutores

03/08/2026
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A China está presenciando o surgimento de uma nova geração de bilionários cujas fortunas não provêm mais de tijolos, cimento ou fábricas, mas sim de inteligência artificial, semicondutores e marcas globais de consumo. Segundo o relatório Hurun de 2026, o país já conta com 29 bilionários que construíram suas próprias fortunas com 40 anos ou menos. Essa elite tecnológica se distingue da geração anterior não apenas pela origem de sua riqueza, mas também por uma postura deliberadamente discreta e uma ambição de alcance global.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Zhu Yiming, um engenheiro que trabalhou no Vale do Silício e, há mais de duas décadas, previu em um e-mail que o mercado global de memória acabaria nas mãos de empresas chinesas. Na época, pouca gente deu atenção. Hoje, Zhu é um dos maiores bilionários de tecnologia da China, com fortuna estimada em US$ 15,5 bilhões, segundo a Forbes. Ele fundou a CXMT (ChangXin Memory Technologies), atualmente a maior fabricante chinesa de chips de memória DRAM, componente essencial para o funcionamento de computadores e servidores.

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A abertura de capital da CXMT na bolsa de Xangai surpreendeu o mercado asiático. As ações da empresa subiram 500% no primeiro dia de negociação, fazendo com que seu valor de mercado ultrapassasse o da Intel, tradicional gigante americana do setor de semicondutores. Antes disso, em 2018, Zhu havia prometido não receber salário até que a empresa se tornasse lucrativa. Ele cumpriu a promessa.

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O caso de Zhu não é isolado. Liang Wenfeng, fundador da DeepSeek, empresa chinesa de inteligência artificial cujo modelo de linguagem causou forte impacto no Vale do Silício, raramente concede entrevistas. A DeepSeek fechou recentemente uma nova rodada de financiamento que elevou a fortuna de Liang a US$ 36 bilhões, valor superior ao patrimônio de líderes como Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic, empresas de referência no desenvolvimento de modelos de linguagem avançados.

Essa nova leva de empreendedores representa uma transformação profunda na economia chinesa. Nas décadas anteriores, os grandes nomes do empresariado chinês enriqueceram com a expansão imobiliária e com fábricas voltadas para a exportação ao Ocidente. O foco desses empresários estava predominantemente no mercado doméstico, sem grandes ambições de expansão internacional. A nova geração inverte essa lógica.

Wang Ning é um exemplo desse perfil. Ele criou os bonecos Labubu para a PopMart, marca de brinquedos colecionáveis, e se tornou a décima pessoa mais rica da China e a mais jovem a alcançar essa posição. O produto se popularizou em diversos países antes mesmo que muitos soubessem pronunciar o nome da empresa. Wang não nasceu com a intenção de limitar seus negócios ao território chinês.

Outro caso notável é o de Zhang Junjie, que em 2017 fundou a Chagee, uma rede de chás com leite enraizada na cultura chinesa. Dois anos depois, a empresa abriu sua primeira loja fora da China. Nove anos após a fundação, a Chagee já estava listada na Nasdaq, bolsa eletrônica americana, operando em múltiplos países.

Esses empreendedores também rompem com tradições da cultura empresarial chinesa. Por anos, o modelo predominante foi o conhecido como 996, que exigia trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana. Figuras como Jack Ma, fundador do grupo Alibaba, e o criador da JD.com defenderam abertamente essa rotina. A nova geração de bilionários, porém, busca atrair talentos afastando-se desse padrão.

A discrição desses novos bilionários, contudo, não é apenas uma escolha de estilo. Reflete uma realidade política e econômica complexa. Desde que Jack Ma foi punido de forma exemplar pelo governo chinês após criticar reguladores do mercado financeiro em um discurso em 2020, Pequim passou a monitorar de perto os movimentos das grandes fortunas do país.

O governo chinês também demonstrou disposição para intervir diretamente em operações que envolvam tecnologia estratégica. Em 2026, Pequim bloqueou a venda da startup de inteligência artificial Manus para a Meta, em um negócio estimado em dois bilhões de dólares. O fundador da Manus, Xiao Hong, teria se tornado bilionário caso a transação fosse concretizada.

Esses episódios ajudam a explicar por que tantos empreendedores chineses de sucesso evitam os holofotes. Há o temor de que uma mudança na política interna da China ou nas relações com os Estados Unidos possa afetar seus negócios de um dia para o outro, expondo suas fortunas a riscos imprevisíveis. A estratégia adotada é deixar que os produtos falem por si, enquanto as personalidades por trás deles permanecem no anonimato.

A consequência é paradoxal: a elite chinesa mais globalizada e influente é também a mais difícil de identificar nas ruas. Ao mesmo tempo em que suas empresas conquistam mercados internacionais e suas tecnologias redefinem setores estratégicos, seus líderes optam por um perfil de invisibilidade deliberada.

Essa dinâmica reflete o momento singular que a economia chinesa atravessa. A transição de um modelo baseado em construção civil e manufatura para outro centrado em tecnologia de ponta não está apenas gerando fortunas — está redefinindo quem detém poder econômico e como esse poder é exercido. E, ao que tudo indica, essa nova elite pretende seguir fazendo barulho com seus produtos, não com suas vozes.

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