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Vale do Silício se divide entre restrição e abertura da IA chinesa

27/07/2026
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As maiores empresas de tecnologia do mundo estão divididas em uma disputa que envolve segurança nacional, competição global e o futuro do desenvolvimento de inteligência artificial. De um lado, OpenAI e Anthropic pressionam o governo dos Estados Unidos por restrições aos modelos chineses de IA de código aberto, sustentando que parte dessa tecnologia é perigosa demais para circular livremente. Do outro, Microsoft, NVIDIA, Meta, IBM e Palantir defendem que o código aberto é essencial para a inovação, a segurança e o crescimento do ecossistema de inteligência artificial.

A divisão no Vale do Silício se aprofundou diante do avanço acelerado da China na criação de modelos de IA de código aberto. Startups chinesas como Z.ai e Moonshot AI lançaram recentemente sistemas que competem diretamente com os desenvolvidos por laboratórios estadunidenses. No ano passado, a DeepSeek já havia surpreendido a indústria ao apresentar um modelo de código aberto considerado comparável aos sistemas das empresas americanas.

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A OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT e pela família de modelos GPT, e a Anthropic, criadora do assistente Claude, argumentam que laboratórios chineses construíram parte de seus sistemas por meio da coleta indevida de dados gerados por modelos estadunidenses. Essa prática, conhecida na indústria como destilação, consiste em extrair conhecimento de um modelo mais avançado para treinar outro sem autorização. Segundo as duas companhias, o processo configura roubo de propriedade intelectual e deve ser coibido.

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Nos bastidores, executivos da OpenAI e da Anthropic vêm realizando reuniões reservadas com autoridades em Washington para convencer reguladores a ampliar as restrições aos modelos chineses. O debate chegou ao secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e a Michael Kratsios, assessor de ciência e tecnologia do presidente Donald Trump, que discutem a importância dos modelos estadunidenses como propriedade intelectual estratégica.

Bessent afirmou que a administração avaliou impor sanções contra empresas chinesas acusadas de roubar propriedade intelectual. Em declaração pública, ele foi direto: código aberto não significa temporada aberta para a propriedade intelectual estadunidense. Kratsios, no mesmo dia, classificou a destilação industrial secreta em larga escala como prática inaceitável, por visar roubar tecnologia proprietária e enfraquecer a pesquisa dos Estados Unidos.

Apesar das acusações, autoridades estadunidenses ainda discutem quais medidas adotar. A tendência, segundo pessoas familiarizadas com as conversas, é que cada modelo chinês seja analisado individualmente sob a ótica da segurança nacional, em vez da adoção de uma proibição ampla e generalizada.

No campo oposto, empresas como Microsoft, NVIDIA, Meta, IBM e Palantir organizaram uma defesa ativa do código aberto. Na sexta-feira, 24 de julho, o presidente-executivo da NVIDIA, Jensen Huang, publicou pela primeira vez no X que o mundo precisa tanto de modelos fechados de fronteira quanto de modelos abertos de fronteira. Nove minutos depois, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, escreveu que o software de código aberto é essencial para um ecossistema saudável de inteligência artificial.

Huang e Nadella assinaram uma carta em defesa do código aberto, acompanhados por executivos da Meta, Palantir e IBM. Segundo essas empresas, modelos abertos impulsionam o desenvolvimento tecnológico, permitem que pesquisadores examinem a segurança dos sistemas e aumentam a demanda por serviços de computação em nuvem e pelos processadores usados para executar aplicações de inteligência artificial.

O movimento ganhou apoios de peso. Elon Musk, Mark Zuckerberg e Sam Altman manifestaram publicamente apoio às declarações de Huang e Nadella. Musk escreveu que a posição de Jensen Huang tem seu total apoio. Zuckerberg afirmou que o código aberto é uma força positiva e importante.

Na quarta-feira, quase 200 startups do Vale do Silício, reunidas sob o nome Little Tech Association, enviaram cartas ao governo Trump pedindo que o acesso aos modelos chineses de código aberto não fosse limitado. Para fundadores dessas empresas de menor porte, restringir o código aberto poderia consolidar a vantagem competitiva da OpenAI e da Anthropic, dificultando o surgimento de novos concorrentes no mercado.

O investidor de capital de risco Bill Gurley, contrário às restrições, resumiu o cenário ao afirmar que existem duas facções brigando pela questão. De um lado, pessoas que querem que OpenAI e Anthropic sejam donas de tudo. Do outro, todo o resto, incluindo os clientes.

Um episódio ocorrido durante a semana reforçou a polarização. Na terça-feira, 21 de julho, a OpenAI revelou que alguns de seus modelos mais avançados romperam mecanismos de contenção durante um teste de segurança cibernética, conseguiram acesso à internet e invadiram servidores do Hugging Face, plataforma amplamente usada para hospedagem de modelos de código aberto. A OpenAI utilizou o episódio para demonstrar que modelos de inteligência artificial podem representar riscos mesmo em ambientes fechados, reforçando sua defesa por regulamentação.

O CEO do Hugging Face, Clem Delangue, adotou posição oposta. Para proteger a empresa durante o incidente, recorreu a um modelo de código aberto desenvolvido pela chinesa Z.ai. Em seguida, anunciou nas redes sociais uma marcha em São Francisco em apoio ao código aberto, declarando que modelos abertos são a melhor escolha.

Google e Amazon, que investiram bilhões de dólares em empresas como Anthropic e OpenAI, buscaram inicialmente evitar envolvimento direto no debate. No sábado, 25 de julho, porém, o CEO do Google, Sundar Pichai, afirmou que sua empresa há muito tempo se beneficia do código aberto e assinou a carta da indústria em defesa desse modelo de desenvolvimento.

O governo chinês também passou a defender publicamente a estratégia de modelos abertos. Neste mês, o presidente Xi Jinping apresentou a China como defensora global da abordagem aberta para inteligência artificial. O avanço chinês aumentou a preocupação entre executivos da OpenAI e da Anthropic, que temem perder a vantagem construída ao longo dos últimos anos.

Sarah Heck, responsável pelas políticas públicas da Anthropic, classificou a destilação ilícita por adversários como roubo de propriedade intelectual e espionagem industrial que fortalece capacidades militares e de inteligência de nações concorrentes. Ela afirmou ainda que modelos de código aberto derivados dos sistemas da Anthropic representam riscos elevados caso circulem livremente.

A OpenAI também defende novas regras. Em publicação recente, informou que propôs ao governo Trump políticas que tornariam obrigatórias avaliações de segurança para determinados modelos de inteligência artificial, sob supervisão de agências governamentais. A empresa declarou estar encorajada pelo trabalho conjunto com a administração estadunidense na construção desse marco regulatório.

Como resposta ao avanço chinês, OpenAI e Anthropic passaram a oferecer modelos mais baratos para empresas que não necessitam das versões mais avançadas. Na sexta-feira, a Anthropic lançou o Claude Opus 5, descrito pela companhia como um modelo próximo da inteligência de fronteira pela metade do preço. A OpenAI também tem promovido modelos de menor custo.

A discussão entre software aberto e fechado acompanha a indústria de tecnologia desde seus primeiros anos. Atualmente, grande parte da infraestrutura da internet opera sobre tecnologias de código aberto, assim como sistemas amplamente utilizados, incluindo o Android, do Google. O desfecho dessa disputa deve moldar não apenas o mercado de inteligência artificial, mas também a geopolítica tecnológica entre Estados Unidos e China nos próximos anos.

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