Insilico Medicine reduz tempo de descoberta de medicamentos com uso de inteligência artificial na China
A empresa de biotecnologia Insilico Medicine, listada em Hong Kong, conseguiu reduzir para cerca de um ano o tempo necessário para produzir candidatos ao desenvolvimento de novos medicamentos ao combinar inteligência artificial com pesquisas laboratoriais realizadas na China. A informação foi divulgada pelo diretor-presidente da companhia, Alex Zhavoronkov, em entrevista recente à imprensa internacional.
De acordo com o executivo, o programa mais rápido da empresa alcançou a etapa de seleção de candidatos em apenas nove meses, enquanto o prazo típico da companhia gira em torno de treze meses. Para efeito de comparação, Zhavoronkov afirmou que abordagens convencionais costumam levar cerca de quatro anos e meio para chegar à mesma fase. O período mencionado abrange as etapas iniciais de descoberta e seleção de candidatos, e não o processo completo de desenvolvimento de um medicamento, que inclui ainda ensaios clínicos, fabricação e aprovação regulatória.
A Insilico utiliza inteligência artificial generativa para identificar alvos biológicos, projetar moléculas com potencial terapêutico e avaliar quais compostos devem avançar para testes em laboratório. Esse tipo de tecnologia permite que algoritmos criem estruturas moleculares e simulem propriedades de fármacos antes que eles sejam efetivamente sintetizados. Após essa fase, os compostos selecionados passam por validação experimental conduzida por pesquisadores humanos. Segundo a empresa, seus programas costumam atingir a indicação de candidatos pré-clínicos entre doze e dezoito meses após os pesquisadores sintetizarem e testarem entre sessenta e duzentas moléculas.
Desde 2021, a Insilico afirma ter gerado trinta e um candidatos pré-clínicos. Treze programas já receberam autorizações para avançar com estudos em humanos, conhecidas como autorizações para novo medicamento em investigação. A pesquisa em inteligência artificial é conduzida em Montreal, no Canadá, e em Abu Dhabi, enquanto grande parte da validação experimental e do trabalho de ampliação em laboratório ocorre na China. A unidade de Xangai conta com partes automatizadas de amostragem biológica e triagem de compostos, o que ajuda a acelerar processos que tradicionalmente são manuais.
Zhavoronkov atribui parte da redução nos prazos de desenvolvimento à infraestrutura de pesquisa chinesa, aos custos operacionais mais baixos e ao ambiente regulatório do país. Empresas farmacêuticas que mantêm laboratórios na China conseguem tirar cerca de dois anos dos prazos tradicionais de desenvolvimento de candidatos, segundo o executivo. A China deixou de ser apenas uma fabricante de ingredientes genéricos e passou a ocupar papel de destaque no desenvolvimento de novos medicamentos, com laboratórios, organizações de pesquisa contratadas, centros de ensaios clínicos e empresas de biotecnologia cada vez mais integrados ao ecossistema global.
Em 2025, o governo chinês implementou um caminho de revisão de trinta dias úteis para aplicações elegíveis de ensaios clínicos de medicamentos inovadores de Classe I, prazo que pode se estender para sessenta dias úteis em casos que exijam consulta de especialistas ou envolvam questões técnicas complexas. Um executivo da Pfizer chegou a afirmar que o desenvolvimento clínico na China pode ser conduzido três vezes mais rápido e com cerca de metade do custo em relação a trabalhos equivalentes na Europa. Dados do setor apontam que candidatos a medicamentos levam de cinco a sete anos para chegar ao mercado chinês, contra pelo menos oito a dez anos nos mercados ocidentais.
A Insilico mantém acordos de pesquisa e desenvolvimento com grandes farmacêuticas como a norte-americana Eli Lilly e a japonesa Takeda. A empresa também anunciou uma proposta de aliança estratégica com a taiwanesa Bora Pharmaceuticals que pode ultrapassar dois bilhões e meio de dólares caso os acordos definitivos sejam assinados e a colaboração seja totalmente implementada. Apesar de operar instalações de pesquisa na China, Zhavoronkov revelou que mais de noventa por cento da receita da Insilico vem de empresas farmacêuticas ocidentais. Os acordos de licenciamento com clientes do Ocidente são mais lucrativos porque o sistema nacional de seguros de saúde da China oferece taxas de reembolso menores para medicamentos altamente inovadores.
No campo clínico, a Insilico anunciou e registrou em julho de 2026 um ensaio clínico de fase três para o Rentosertib, medicamento oral em estudo para o tratamento da fibrose pulmonar idiopática, doença que causa cicatrizes progressivas nos pulmões. A inteligência artificial foi usada tanto para identificar o alvo biológico do fármaco quanto para gerar e otimizar sua estrutura molecular. O estudo pretende envolver 320 participantes distribuídos em 47 centros na China e comparar o Rentosertib com placebo ao longo de 52 semanas, tendo como desfecho principal a taxa anual de declínio da capacidade vital forçada, medida padrão da função pulmonar. O recrutamento estava previsto para começar em agosto de 2026, com conclusão primária estimada para outubro de 2029. O Rentosertib é o primeiro programa da empresa a alcançar a fase três, e nenhum dos medicamentos experimentais da Insilico recebeu aprovação comercial até o momento.
A automação também tem transformado os perfis profissionais dentro da companhia. Zhavoronkov estimou que cerca de quarenta por cento da força de trabalho da área de software da Insilico poderá ser automatizada ou deslocada. A empresa emprega aproximadamente quatrocentas pessoas e vem treinando cientistas de laboratório e engenheiros de software para gerenciar sistemas de avaliação baseados em inteligência artificial, equipamentos automatizados e robótica. Os dados disponíveis até o momento não permitem concluir se medicamentos projetados com inteligência artificial apresentam taxas de sucesso maiores em fases avançadas de testes clínicos.