PUBLICIDADE

Boom da IA torna São Francisco inabitável para profissionais de tecnologia

13/07/2026
117 visualizações
4 min de leitura
Imagem principal do post

O ciclo de investimentos em inteligência artificial transformou São Francisco em uma cidade economicamente irreconhecível, onde salários que antes garantiam conforto financeiro — como US$180 mil anuais — já não são suficientes para custear moradia e despesas básicas. O fenômeno está criando uma divisão sem precedentes dentro do próprio setor de tecnologia: profissionais que não trabalham em empresas de IA de ponta estão sendo empurrados para fora do mercado imobiliário pela nova geração de milionários formada por funcionários de companhias como OpenAI e Anthropic.

OpenAI é a empresa responsável pelo ChatGPT e pelos modelos de linguagem GPT. Anthropic é a criadora do assistente de IA Claude. Ambas concentram some de seus funcionários em São Francisco e regiões próximas, e a valorização acelerada de suas ações está redirecionando o poder de compra na cidade.

O jornal The New York Times relatou o caso de Katrine Razniak, recrutadora do LinkedIn — plataforma profissional pertencente à Microsoft —, e seu parceiro Adam Woodbury, engenheiro de software. Eles moram em São Francisco há cinco anos e ganham, respectivamente, US$180 mil e US$185 mil por ano. Mesmo com essa renda conjunta superior a US$365 mil anuais, o casal não conseguiu encontrar um apartamento de um quarto dentro de um orçamento de US$5 mil mensais.

Imagem complementar

Após meses de busca, eles visitaram um imóvel cobrado a US$5.200 por mês. Uma hora depois da visitação, a lista de interessados já contava com 30 candidatos. A frustração os levou a considerar a mudança para outro estado, onde seus salários lhes permitiriam um padrão de vida equivalente ao da classe alta.

Comprar um imóvel também está fora de alcance. O preço médio de uma casa em São Francisco é de US$1,7 milhão, mais de três vezes a média nacional estadunidense de US$450 mil. Os aluguéis na cidade são os mais caros dos Estados Unidos, superando até mesmo os de Nova York. Imóveis considerados acessíveis, abaixo de US$5 mil mensais, costumam ser alugados em questão de segundos, segundo relatos de moradores.

PUBLICIDADE

O motor dessa escalada de preços está diretamente ligado à valorização das empresas de IA. Desde que a OpenAI atingiu uma avaliação de US$500 bilhões no ano passado, funcionários da empresa passaram a vender ações e investir em imóveis, o que impulsionou ainda mais os preços das moradias na região. A empresa, comandada por Sam Altman, hoje é avaliada em US$852 bilhões.

A Anthropic, por sua vez, ambiciona alcançar uma avaliação de US$900 bilhões. Para dimensionar esses números, quando a Uber abriu seu capital em 2019, seu valor de mercado era de US$82 bilhões — cerca de um décimo das cifras que as empresas de IA estão atingindo.

As ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês para Initial Public Offering, o processo de abertura de capital de uma empresa na bolsa de valores) previstas para OpenAI, Anthropic e a SpaceX — empresa aeroespacial de Elon Musk — devem criar até 20 novos bilionários, segundo estimativas. Esse acúmulo acelerado de riqueza está comprimindo a chamada classe média com conhecimento tecnológico, formada por desenvolvedores, analistas e profissionais de suporte que tradicionalmente compunham o ecossistema de inovação da região.

O problema não se limita ao mercado imobiliário. O custo de vida em São Francisco é 65,6% mais alto do que a média do restante dos Estados Unidos, de acordo com dados do Índice de Custo de Vida. Katrine Razniak relatou que suas despesas mensais aumentaram em US$1 mil sem que houvesse qualquer mudança em seu estilo de vida. Ela e seus amigos passaram a substituir refeições em restaurantes por comida caseira.

O salário médio na cidade de fato aumentou nos últimos seis anos, passando de US$153 mil para US$196 mil. Esse crescimento, no entanto, é insuficiente diante da velocidade com que os custos se elevam, especialmente no setor habitacional. A oferta de novas moradias é baixa, a demanda cresce sem parar e o estoque de imóveis acessíveis diminui a cada mês.

A crise habitacional de São Francisco reflete um problema global. Países como Canadá, Alemanha, México, China e o próprio Estados Unidos enfrentam dificuldades semelhantes para equilibrar a oferta de moradias com a crescente demanda. Em São Francisco, porém, a concentração de capital gerada pelo setor de IA tornou a situação particularmente aguda.

A consequência direta é que trabalhar com tecnologia deixou de ser garantia de prosperidade na cidade. Profissionais qualificados que não estão vinculados a empresas de IA estão perdendo poder de compra frente a colegas que acumulam ações de empresas avaliadas em centenas de bilhões de dólares. A divisão não é mais entre quem trabalha com tecnologia e quem não trabalha, mas entre quem está dentro do ciclo de valorização da IA e quem está fora.

O cenário levanta questões concretas sobre o futuro do mercado de trabalho em tecnologia. Se a base de profissionais que sustenta a infraestrutura de inovação da região não consegue mais morar nela, o ecossistema que tornou São Francisco o epicentro mundial da tecnologia pode perder sua capacidade de reter talentos.

Por enquanto, a tendência aponta para uma cidade cada vez mais seletiva, acessível apenas a uma faixa restrita de trabalhadores do setor de IA. Para os demais profissionais de tecnologia, a equação entre salário e custo de vida está se tornando insustentável — e a mudança para outras regiões passa a ser uma decisão econômica, não apenas uma escolha de estilo de vida.

PUBLICIDADE
Este post foi útil para você?

Leitura recomendada

💬 Comentários

Nenhum comentário ainda. Conte o que achou, tire uma dúvida ou discorde. Seja o primeiro!

Deixe seu comentário
O e-mail não aparece. Serve só para avisar quando responderem você.
Os comentários passam por aprovação antes de aparecer. Crie uma conta de leitor e, depois do primeiro aprovado, os próximos saem na hora.
Apoie o ConexãoTC

O ConexãoTC é independente e gratuito. Se as notícias fazem parte do seu dia, contribua com qualquer valor pelo PIX e ajude a manter o blog no ar.

QR code PIX para apoiar o ConexãoTC
Aponte a câmera do app do banco
Favorecido: Jean Dgardany C. Lima, editor do ConexãoTC
🗳️ O que você quer ler aqui?

Marque os assuntos que te interessam. Os mais pedidos viram os próximos artigos.

Leitores cadastrados têm as sugestões atendidas primeiro e recebem um aviso quando o artigo sai.
Fique por dentro

Os destaques do dia no seu e-mail, todo dia às 8h.

PUBLICIDADE