A inteligência artificial deixou de ser promessa no setor de franquias brasileiro e começou a gerar resultados mensuráveis. Segundo estudo da Associação Brasileira de Franchising (ABF), realizado entre julho e agosto de 2025, uma a cada quatro redes já utilizava a tecnologia de forma estruturada, enquanto 37% realizavam testes. Os ganhos reportados incluem aumento de margem, redução de custos operacionais, ganhos de produtividade no desenvolvimento de software e melhoria na assertividade de compras e previsão de demanda.
Apesar da adesão crescente, a pesquisa indica que a maior parte das redes ainda aplica a tecnologia em usos mais simples, como chatbots, assistentes virtuais e geração de textos e imagens. Apenas 9% das empresas indicaram uso avançado em processos-chave. Do total de 419 respondentes, que representam 32% das operações do setor, cerca de um quinto relatou aplicações mais sofisticadas, como análise preditiva de demanda e sistemas de recomendação.
Uma das redes com maior maturidade no uso de IA é a Market4u, que opera mercados autônomos em 2,7 mil lojas distribuídas em 185 cidades e atende 2 milhões de consumidores. A empresa acumulou volume de dados suficiente para desenvolver 15 iniciativas com inteligência artificial. A mais recente, lançada em março de 2025, realiza precificação dinâmica de cada um dos 60 mil itens ofertados com base em geolocalização e preços praticados por mercados próximos. Em um ano, a ferramenta rendeu aumento de 3% na margem da rede, o equivalente a aproximadamente R$ 40 milhões de faturamento mensal, e reduziu em 38% o número de produtos retirados dos carrinhos pelos consumidores.
A Market4u também desenvolveu uma ferramenta que cruza dados de produtos e de usuários para sugerir o mix ideal de cada loja, além de personalizar promoções. Esse recurso gerou compras adicionais de R$ 1,5 milhão por mês. O atendimento automatizado por IA resolveu 78% dos chamados de clientes e economizou 228 horas de trabalho somente em maio de 2025. Eduardo Córdova, CEO e cofundador da rede, afirma que a próxima fronteira da empresa será a robótica.
A Avend, especializada em vending machines com 113 unidades próprias e 133 franqueadas, registrou receita de R$ 18,5 milhões em 2025. A empresa substituiu seus sistemas de gestão de operações (ERP) e de relacionamento com clientes (CRM) por uma plataforma proprietária chamada AvendOS, desenvolvida pelo CEO Guilherme Álvares com base no Claude, modelo de inteligência artificial da Anthropic. Álvares relata que aprendeu a construir o sistema a partir das próprias interações com a IA.
Implantado em março, o AvendOS utilizou dados de telemetria das máquinas e conectores de software (APIs) de terceiros, como a Secretaria da Fazenda para emissão de notas fiscais. O resultado foi economia de R$ 60 mil em licenças de software e ganho de previsibilidade operacional. Álvares atribui 80% do aumento de 35% no faturamento da rede em abril ao novo sistema.
Na Todomoda, rede de lojas de acessórios, o enriquecimento do sistema de gestão comercial com inteligência artificial, implementado há cerca de dois anos, contribuiu para um aumento de 31% no tíquete médio das lojas. A tecnologia aprimorou processos de análise de vendas, previsão de demanda, recomendação de compras e otimização de estoques. Adriano Magalhães, CEO da rede no Brasil, explica que a empresa passou a acompanhar o desempenho dos produtos em tempo real e a alinhar a estratégia da marca com a realidade de cada unidade.
O Grupo Trigo, que administra mais de 700 restaurantes das marcas Spoleto, China in Box, Gendai, Koni, Gurumê e Casa do Pão de Queijo, adotou agentes inteligentes para apoiar o treinamento de franqueados e responder dúvidas recorrentes na área financeira. Os agentes também assumiram a primeira linha de atendimento no suporte. A plataforma Tommy permite que franqueados solicitem informações ao sistema de inteligência de negócios (BI) por meio de comandos em texto.
Na fábrica do Grupo Trigo, a previsão de compras ganhou 10% de assertividade com o uso de IA. No desenvolvimento de software interno, a produtividade triplicou, com tempo de entrega 60% menor e assertividade dos códigos 85% maior, segundo Luiz Marcelo Correia, diretor-executivo de dados (CDO) do grupo.
A Bio Mundo, rede de 168 lojas com faturamento de R$ 290 milhões em 2025, implantou três agentes de IA com funções distintas. O agente Ed cuida do atendimento inicial, pré-seleção e agendamento de reuniões com candidatos a franqueados. A agente Mari apoia os 540 vendedores das lojas com informações sobre produtos, nutrição e protocolos de atendimento, reduzindo o prazo de treinamento de novos colaboradores de cinco para dois dias. A gerente de marketing Marcelle Nicolino relata aumento de 20% nas vendas e de 85% no tíquete médio. A agente Bia, ainda em fase piloto, atua integrada ao CRM para personalizar recomendações de produtos aos consumidores em canais digitais.
A franquia de cuidadores Acuidar aplica IA tanto na produção de conteúdo de marketing e treinamento quanto em uma função mais específica: a análise de compatibilidade entre cuidadores e pacientes por meio de seu aplicativo de gestão de unidades. O tempo necessário para processos de análise e consolidação de informações caiu de um dia para cinco minutos. A CEO Jéssica Ramalho informa que o grupo investiu cerca de R$ 200 mil em IA até o momento.
A Fuel Eyewear, rede de lojas de óculos, desenvolveu uma ferramenta de IA lançada no início do ano que integra dados públicos e a experiência interna da empresa para apoiar a seleção de pontos comerciais para novas unidades. O CEO Flávio Costa Barros destaca que os ganhos incluem maior qualidade e profundidade nas análises, além de estudos estruturados para apresentar a potenciais investidores e franqueados.
Os dados da ABF mostram que o setor de franquias brasileiro está em um momento de transição. A maioria das redes ainda explora aplicações básicas, mas as empresas que avançaram para usos mais sofisticados já colhem retornos financeiros expressivos. A diferença de resultados entre os dois grupos tende a ampliar o ritmo de adoção da tecnologia nos próximos anos, à medida que casos concretos de ganhos de margem, produtividade e eficiência operacional se tornem mais conhecidos no mercado.