Dados de saúde de smartwatches quase nunca chegam aos médicos
Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos revelou que, apesar do crescimento expressivo no uso de dispositivos vestíveis para monitoramento de saúde, menos de um quinto dos usuários compartilha esses dados com profissionais de saúde. O estudo foi liderado pela cientista brasileira Aline Pedroso, pesquisadora associada à Escola de Medicina de Yale, e analisou informações de 17.395 participantes do Health Information National Trends Survey, um levantamento populacional patrocinado por institutos de saúde estadunidenses desde 2003. Os resultados mostram uma desconexão significativa entre a adoção de tecnologias vestíveis e o aproveitamento médico das informações por elas coletadas.
Segundo o levantamento, a parcela da população que utilizava dispositivos vestíveis para acompanhar indicadores de saúde ou atividade física passou de 30,2% em 2020 para 36,7% em 2022, chegando a 41% em 2024. No mesmo intervalo, contudo, o percentual de usuários que compartilhou os dados com médicos cresceu de maneira muito mais modesta: saiu de 14,2% e atingiu apenas 19,2% no último ano analisado. Os dispositivos vestíveis, categoria que engloba relógios inteligentes, pulseiras de atividade física, anéis inteligentes e fones equipados com sensores, são capazes de registrar informações como batimentos cardíacos, oxigenação do sangue e variações de temperatura corporal.
A pesquisa aponta ainda um dado curioso: embora a maioria dos usuários demonstrasse interesse em enviar suas informações de saúde a profissionais, essa disposição vem diminuindo ao longo do tempo. Em 2020, 81,3% dos usuários afirmavam estar dispostos a compartilhar os dados. Esse número caiu para 78,7% em 2022 e chegou a 73,4% em 2024. Mesmo com essa redução, a intenção declarada permanece bastante superior à prática efetiva de compartilhamento, o que indica a existência de obstáculos concretos entre o desejo dos usuários e a realidade das consultas médicas.
A principal barreira identificada pelo estudo é a falta de integração entre os dispositivos e os sistemas de saúde utilizados por consultórios e hospitais. Muitas vezes, essas instituições não possuem infraestrutura adequada para receber, organizar e interpretar o volume de informações gerado pelos aparelhos. Somam-se a isso a ausência de padronização entre os aplicativos de saúde, o que dificulta ainda mais a transferência fluida dos dados entre pacientes e profissionais. Esses obstáculos limitam o potencial transformador que as fabricantes atribuem aos dispositivos no acompanhamento e na prevenção de doenças.
A geração de dados com foco no monitoramento e na prevenção de condições de saúde é, de fato, uma das prioridades do mercado. O estudo cita como exemplo as notificações de hipertensão oferecidas por relógios inteligentes, que ilustram como os registros coletados podem contribuir diretamente para a detecção precoce de problemas de saúde. Quando essas informações não conseguem fluir até os médicos, no entanto, parte significativa do valor preventivo dos dispositivos se perde, reduzindo o impacto clínico real das tecnologias vestíveis.
Além das dificuldades de compartilhamento, a pesquisa revelou que o uso diário dos dispositivos também apresentou declínio ao longo do período analisado. A taxa de uso cotidiano foi de 50,5% em 2020, caiu para 41% em 2022 e teve uma recuperação parcial para 45,6% em 2024. Isso significa que, no último ano medido, menos da metade dos usuários mantinha uma rotina constante de uso. Para os pesquisadores, essa irregularidade compromete a construção de um histórico confiável, já que dados inconsistentes dificultam a identificação de padrões e tendências relevantes para a saúde.
Apesar dos desafios apontados pelo levantamento, os dispositivos vestíveis seguem entre as principais apostas das fabricantes de tecnologia para os próximos anos. A expectativa é que novos modelos incorporem cada vez mais recursos baseados em inteligência artificial e processamento local de dados, ampliando as capacidades de análise e monitoramento. Contudo, para que essas inovações se traduzam em benefícios concretos para a saúde dos usuários, será necessário superar as barreiras estruturais que hoje impedem que as informações coletadas cheguem a quem pode interpretá-las com responsabilidade clínica.