PUBLICIDADE

Falha de comunicação é principal causa de fracasso em projetos de IA

13/06/2026
131 visualizações
5 min de leitura
Imagem principal do post

Estudos do MIT e do Gartner revelam que a maioria dos projetos corporativos de inteligência artificial não chega a gerar resultados relevantes. Um levantamento da iniciativa NANDA, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), apontou que 95% das iniciativas de IA generativa nas empresas não produzem ganhos significativos de receita ou eficiência. A consultoria Gartner estima que pelo menos 30% desses projetos sejam abandonados logo após a fase de prova de conceito, por problemas de qualidade de dados, governança e ausência de valor de negócio claramente definido.

Os dados expõem um paradoxo conhecido do mercado: embora os modelos de linguagem tenham atingido níveis de capacidade sem precedentes, a maior parte das iniciativas não sobrevive ao contato com a operação real das organizações. Pesquisadores do MIT identificaram que o principal obstáculo não está na capacidade técnica dos modelos, mas na falta de integração com os processos internos das companhias. Ferramentas genéricas não se adaptam a fluxos de trabalho específicos nem dialogam com os sistemas já existentes.

A análise retrospectiva da Mind Group, software house brasileira sediada em Sorocaba, no interior paulista, com mais de uma década de operação e mais de 250 projetos entregues, reforça essa leitura. Em cerca de 70% dos casos de fracasso ou retrabalho observados no mercado, a causa-raiz não estava na tecnologia, mas na comunicação entre as equipes técnicas e as áreas de negócio. A empresa atende clientes no Brasil e nos Estados Unidos com cerca de 100 profissionais especializados em desenvolvimento de software sob medida e IA generativa.

Imagem complementar

José Gonçalves, CEO da Mind Group, sintetiza o problema com uma afirmação direta: setenta por cento dos projetos de inteligência artificial falham na comunicação, não na tecnologia. Segundo ele, o modelo de linguagem funciona. O que não funciona é a empresa contratante não saber explicar o próprio processo, enquanto o fornecedor não faz as perguntas adequadas antes de escrever a primeira linha de código.

A falha em projetos de inteligência artificial raramente se manifesta como um sistema fora do ar. Na maioria dos casos, o software é entregue, funciona do ponto de vista técnico e perde utilidade em silêncio. Os usuários não adotam a ferramenta, as respostas não refletem a realidade do negócio ou o sistema acaba resolvendo um problema que não era prioridade. Esse padrão de obsolescência silenciosa é o que mais compromete o retorno sobre o investimento.

PUBLICIDADE

Há um dado relevante para quem toma decisões. O estudo do MIT indica que empresas que recorrem a fornecedores especializados em regime de parceria alcançam taxa de sucesso de aproximadamente 67%. As que tentam desenvolver tudo internamente obtêm resultado positivo em apenas um terço dos casos. O formato de contratação, portanto, pesa tanto quanto a competência técnica da equipe envolvida.

Quando o time técnico está distante da área de negócio, tende a construir exatamente o que foi pedido, que quase nunca corresponde ao que a empresa realmente precisava. Requisito mal definido, na avaliação de Gonçalves, não é um detalhe de projeto: é a causa de morte mais comum. Para o executivo, quem domina o negócio precisa ter ao menos conhecimento superficial do aspecto técnico, uma habilidade cada vez mais requisitada no mercado profissional.

A resposta da Mind Group para esse gargalo foi estrutural. Em vez do modelo tradicional de fábrica de software, no qual o fornecedor recebe um escopo fechado, entrega e encerra o contrato, a empresa opera com squads dedicados. São equipes multidisciplinares alocadas integralmente para cada cliente, presentes desde as discussões iniciais de negócio até a operação em produção. O modelo encarece a operação, mas reduz o ruído de comunicação que os estudos apontam como principal fator de fracasso.

A diferença é mais perceptível em projetos de IA generativa, nos quais os requisitos mudam ao longo do desenvolvimento e o ajuste fino depende de ciclos curtos de feedback. Foi nesse formato que a software house atendeu organizações de alta complexidade no Brasil, entre elas Itaipu Binacional, Universidade de São Paulo, rede de ensino Fisk, Febracis, Lojas Torra e a multinacional Henkel. São projetos em setores nos quais erro de entendimento custa caro, seja por regulação, seja pela escala da operação.

Uma experiência interna ilustrou o problema com clareza. O LawrAI, plataforma jurídica com IA generativa desenvolvida pela Mind Group como demonstração de competência técnica, atende mais de 20 mil usuários. A ferramenta utiliza RAG, sigla para geração aumentada por recuperação, técnica que permite ao modelo de linguagem consultar bases de documentos legais antes de responder. Levar a plataforma à produção exigiu menos esforço de modelagem e mais trabalho de curadoria com especialistas do domínio jurídico.

Gonçalves observa que existe uma distância enorme entre conectar uma API do GPT e colocar inteligência artificial em operação para 20 mil pessoas. A API qualquer um integra em uma tarde, afirma. O difícil é garantir que a resposta esteja correta, rastreável e dentro do que a regulação permite. Segundo ele, isso não se resolve com tecnologia, mas com convivência entre desenvolvedor, área de negócio e especialista do domínio.

Para o executivo que decide o orçamento, a lição dos números é de gestão de portfólio, não de tecnologia. O erro mais frequente observado pela Mind Group é a pulverização: empresas lançam dezenas de pilotos para não ficar para trás e não levam nenhum à maturidade. Gonçalves defende que três iniciativas que chegam à produção, com responsável definido, indicador claro e orçamento para evoluir, valem mais do que trinta provas de conceito que morrem na demonstração.

A disciplina é conhecida, mas pouco seguida. Escolher poucos casos de uso com retorno mensurável, nomear um responsável de negócio, definir previamente qual indicador a IA deve mover e tratar qualidade de dados como pré-requisito são etapas fundamentais. O Gartner estima que 85% das iniciativas fracassem por dados inadequados. O MIT, por sua vez, indica que os maiores ganhos estão em áreas administrativas e de suporte, não em vendas e marketing, onde se concentra mais da metade dos orçamentos corporativos.

Gonçalves alerta ainda para a tentação do momento. Com ferramentas de IA gerando código em segundos, cresce o impulso de jogar o projeto inteiro em um modelo, sem engenharia por trás. O resultado engrossa as estatísticas de insucesso: protótipos que impressionam na demonstração e desmoronam diante de dados reais, regulação e usuários. A IA escreve código melhor a cada mês, reconhece o executivo, mas não assume responsabilidade pelo resultado. Quando o sistema cai numa sexta-feira à noite, o prompt não atende o telefone. O que separa um projeto que gera resultado de uma estatística de fracasso, conclui, é traduzir o negócio em arquitetura que aprende — e isso continua sendo gente conversando com gente.

PUBLICIDADE
Este post foi útil para você?

Leitura recomendada

💬 Comentários

Nenhum comentário ainda. Conte o que achou, tire uma dúvida ou discorde. Seja o primeiro!

Deixe seu comentário
O e-mail não aparece. Serve só para avisar quando responderem você.
Os comentários passam por aprovação antes de aparecer. Crie uma conta de leitor e, depois do primeiro aprovado, os próximos saem na hora.
Apoie o ConexãoTC

O ConexãoTC é independente e gratuito. Se as notícias fazem parte do seu dia, contribua com qualquer valor pelo PIX e ajude a manter o blog no ar.

QR code PIX para apoiar o ConexãoTC
Aponte a câmera do app do banco
Favorecido: Jean Dgardany C. Lima, editor do ConexãoTC
🗳️ O que você quer ler aqui?

Marque os assuntos que te interessam. Os mais pedidos viram os próximos artigos.

Leitores cadastrados têm as sugestões atendidas primeiro e recebem um aviso quando o artigo sai.
Fique por dentro

Os destaques do dia no seu e-mail, todo dia às 8h.

PUBLICIDADE