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Mentir é o que nos torna humanos: a tese de Christian Dunker sobre a mentira como ensaio de existência

07/06/2026
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Mentir é o que nos torna humanos, assim como prometer e perdoar

A mentira, assim como a capacidade de prometer e de perdoar, é uma característica que define o ser humano. Essa é a tese central apresentada pelo psicanalista Christian Dunker no segundo episódio de sua série dedicada ao tema da mentira, publicada em sua coluna no UOL Tilt. O autor argumenta que, diferentemente dos animais, somente os seres humanos são capazes de mentir de forma consciente, utilizando o uso simbólico da linguagem para enganar o outro. Enquanto os animais podem enganar, tapear ou disfarçar — como a fêmea do chupim que põe seus ovos em ninho alheio, a borboleta que mimetiza as asas para imitar os olhos de um predador, ou os peixes que se recobrem de algas e os ursos que criam pegadas falsas —, essas estratégias são instintivas e não envolvem intenção simbólica.

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A linguagem simbólica é o que separa a mentira humana dos mecanismos de defesa animal. Os humanos sabem que podem contar com a palavra e com a representação para criar versões da realidade que não correspondem aos fatos. É nesse terreno que nasce a mentira como algo propriamente humano. Dunker recorre ao conceito de paralinguística, que é a disciplina responsável por estudar a linguagem não verbal, incluindo os sinais corporais, o tom de voz e o estilo de dizer as coisas. Segundo essa área de estudo, existem sinais que podem denunciar uma mentira, embora eles variem bastante de cultura para cultura e de pessoa para pessoa. Esses sinais também podem ser aprendidos e neutralizados, especialmente por profissionais treinados para controlar suas expressões.

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De acordo com o texto, mentimos porque nos alienamos ao desejo do outro, ou seja, tentamos adivinhar o que nos tornará amáveis, adequados e interessantes diante das expectativas alheias. A mentira surge, portanto, como uma espécie de adaptação social, uma tentativa de corresponder ao que imaginamos que o outro quer ver em nós. Nesse sentido, a mentira não seria apenas um defeito moral, mas uma forma de negociar a própria presença no mundo e nas relações interpessoais.

Dunker vai além e propõe que a mentira funciona como um ensaio para viver outras vidas e se tornar outras pessoas. Segundo o autor, ela envolve elementos como o teatro, a dança, o lúdico e o sexo. Mentir seria, assim, uma forma de experimentar possibilidades de existência que a realidade talvez não ofereça, um exercício de imaginação e de transformação pessoal que carrega uma dimensão profundamente criativa. A mentira não seria apenas uma distorção da verdade, mas uma tentativa de expandir os limites do que somos e do que podemos vir a ser.

O texto também destaca que mentimos para ser ou ter aquilo que não somos ou não temos, e para retirar a vida da banalidade. Contudo, o autor faz uma ressalva importante: embora a mentira possa cumprir essa função de escapar do cotidiano ordinário, o excesso de mentiras pode tornar a vida quase insuportável. Há, portanto, um limite tênue entre a mentira como ferramenta de enriquecimento da experiência humana e como elemento de destruição das relações e da própria identidade.

A reflexão proposta por Dunker se conecta ao episódio anterior da série, no qual o autor abordou como a mentira se tornou uma ferramenta de sobrevivência na era digital. Naquele texto, ele já havia argumentado que o intelecto humano existe como instrumento de sobrevivência, e não de verdade, o que coloca a mentira no centro da própria condição humana. A série como um todo convida o leitor a repensar preconceitos sobre a mentira, entendendo-a não apenas como uma falha ética, mas como um componente essencial da vida social e afetiva. Ao reconhecer que mentir é tão humano quanto prometer ou perdoar, o autor sugere que compreender a mentira é também compreender a nós mesmos.

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