A NTT DATA realizou no dia 27 de maio, em São Paulo, o evento Interconnected 2026, com uma mensagem que diverge do discurso predominante no setor de tecnologia: a inteligência artificial não reduz equipes, mas sim amplia a necessidade de profissionais qualificados. O posicionamento foi apresentado pelo CEO da NTT DATA Brasil, Jefferson Anselmo, e reforçado por nomes como o futurista Mike Walsh e executivos de IBM, Microsoft, AWS e Cisco, que participaram do evento no Transamerica Expo Center.
O Interconnected 2026 foi estruturado em torno da ideia de colocar o ser humano no centro das discussões sobre tecnologia. Desde a abertura, Anselmo deixou claro que o foco não seria a arquitetura técnica da inteligência artificial, mas sim o papel das pessoas na construção e na direção dessas ferramentas. Em sua fala inicial, o executivo afirmou que falaria sobre IA, mas não da tecnologia por trás dela, e sim das pessoas, dos seres humanos que fazem da tecnologia o que desejam que ela seja.
Esse enquadramento é relevante porque contrasta diretamente com a onda de demissões que tem marcado o setor de tecnologia desde 2023. Grandes empresas do segmento anunciaram cortes significativos de pessoal em anos recentes, muitas vezes associando a reestruturação à adoção de ferramentas baseadas em inteligência artificial. A NTT DATA, porém, adota uma narrativa diferente, sustentando que continua contratando e que a tecnologia funciona como amplificador do potencial humano, não como substituta dele.
Anselmo rejeitou com firmeza a tese de que os ganhos com inteligência artificial vêm da economia com pessoal. Para o executivo, o efeito da tecnologia será exatamente o oposto da retração de equipes. Ele argumentou que a IA vai criar uma explosão de demanda por soluções mais complexas, mais personalizadas e mais humanas. Para atender a essa demanda, segundo ele, será necessário contar com mais pessoas, não menos.
A declaração de que a empresa segue contratando enquanto outras reduzem seus quadros foi apresentada por Anselmo não apenas como uma visão idealista, mas como uma posição prática e efetiva. A frase resume a estratégia da NTT DATA diante de um mercado que, de forma geral, enxerga a automação como caminho para enxugar operações e cortar custos com mão de obra.
O evento também contou com a participação do futurista Mike Walsh, que trouxe reflexões sobre como a liderança precisa se adaptar em um cenário dominado pela inteligência artificial. Um dos pontos destacados por Walsh foi que a liderança deixa de ser sinônimo de ter respostas prontas e passa a exigir outra postura dos gestores diante de equipes que trabalham integradas a sistemas de IA.
Além de Walsh, o Interconnected 2026 reuniu executivos de empresas como IBM, Microsoft, AWS e Cisco, que compartilharam suas perspectivas sobre a integração entre inteligência artificial e colaboradores nas organizações. A presença dessas companhias reforça o peso do debate: todas são protagonistas no desenvolvimento e na oferta de soluções baseadas em IA para o mercado corporativo. A Microsoft, por exemplo, é uma das investidoras da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT e pelos modelos GPT. A AWS, divisão de computação em nuvem da Amazon, oferece serviços de IA generativa para empresas. A IBM atua com soluções corporativas de inteligência artificial por meio da plataforma Watson. Já a Cisco é referência em infraestrutura de rede e segurança para ambientes digitais.
A discussão promovida no evento toca em uma tensão real do mercado. Por um lado, há o receio de que a automação substitua funções antes exercidas por humanos. Por outro, há o argumento de que novas tecnologias criam categorias inéditas de trabalho e elevam a complexidade das entregas esperadas pelas empresas e pelos clientes. A NTT DATA se posiciona claramente no segundo grupo, defendendo que a qualificação profissional, e não a redução de quadros, é o caminho para lidar com a transformação provocada pela inteligência artificial.
Anselmo encerrou sua intervenção com uma metáfora que resume a filosofia da empresa para o evento. Para ele, o motor da inovação não são os processadores, os algoritmos ou os processos automatizados. O motor da inovação, segundo o executivo, é feito de sinapses, ou seja, das mentes humanas que concebem, dirigem e atribuem propósito às tecnologias.
O Interconnected 2026 se configura como um marco na tentativa de mudar o tom do debate sobre inteligência artificial no Brasil. Enquanto o mercado global de tecnologia segue ajustando seus quadros e repensando suas operações à luz da automação, a NTT DATA aposta que o diferencial competitivo estará, cada vez mais, na capacidade de atrair e reter talentos capazes de trabalhar em conjunto com sistemas inteligentes.
A mensagem do evento é clara para profissionais da área: a qualificação contínua e a capacidade de interagir com ferramentas de IA podem ser mais determinantes para a empregabilidade do que a simples proteção de funções tradicionais. Para as empresas, o desafio que se coloca é encontrar o equilíbrio entre a eficiência proporcionada pela automação e o valor agregado que somente profissionais qualificados conseguem entregar.