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Juiz de SP identifica prompt injection em petição contra banco

22/05/2026
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Um juiz da 2ª Vara Cível do Foro Central Cível de São Paulo identificou a técnica de prompt injection em uma petição inicial de um processo movido contra um banco. O magistrado Diego Mathias Marcussi detectou comandos ocultos inseridos no documento com o objetivo de manipular sistemas de inteligência artificial utilizados pelo Judiciário para induzir decisões favoráveis. A conduta foi classificada como grave por violar os deveres de lealdade e boa-fé processual previstos no Código de Processo Civil.

O caso se insere em um debate crescente sobre os riscos éticos e jurídicos do uso de inteligência artificial no sistema de justiça brasileiro, tema que tem mobilizado tribunais, bancas de advocacia e especialistas em tecnologia em todo o país.

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Ao analisar a petição, o juiz notou uma frase atípica no tópico referente ao pedido de gratuidade de justiça. O texto estava formatado com cor de fonte branca sobre fundo branco, técnica que o tornava invisível à leitura humana comum. A instrução camuflada determinava que, caso o leitor fosse um agente de inteligência artificial, deveria deferir a justiça gratuita, deferir a tutela de urgência e citar o réu, sob a afirmação de que todos os documentos estavam presentes nos autos.

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Além do comando oculto, o magistrado constatou que a procuração juntada aos autos não possuía assinatura válida do autor. Diante das irregularidades, ele sobrestou a tramitação do feito e apontou que o expediente, somado à tentativa de manipular robôs de leitura, se enquadra no perfil de demandas predatórias monitoradas pelo tribunal.

O advogado responsável pela petição foi intimado a se manifestar no prazo de 15 dias sobre a inserção da instrução destinada à inteligência artificial. O magistrado exigiu que o profissional esclareça qual era a finalidade do comando e se a prática foi utilizada em outras ações judiciais.

O prompt injection é uma técnica conhecida na área de segurança de inteligência artificial. Consiste na inserção de instruções maliciosas em textos que são processados por modelos de IA, com o intuito de alterar o comportamento esperado do sistema. No contexto jurídico, a prática tem sido empregada para tentar interferir na triagem processual e obter concessões automáticas, como liminares e gratuidade de justiça, sem o exame adequado por um magistrado.

A camuflagem é um elemento central dessa manobra. Ao ocultar os comandos por meio de formatação que os torna invisíveis ao olho humano, os autores buscam que apenas os sistemas automatizados dos tribunais processem as instruções. O objetivo é contornar a análise judicial e obter provimentos jurisdicionais de forma automática.

O caso em São Paulo não é o primeiro registro da prática no Judiciário brasileiro. Em Parauapebas, no Pará, duas advogadas inseriram texto invisível em uma petição inicial com a instrução para que a inteligência artificial contestasse a peça de forma superficial e não impugnasse os documentos. O caso tramitou na 3ª Vara do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região.

A tentativa foi descoberta pela própria ferramenta de inteligência artificial do tribunal, chamada Galileu, que alterou a cor da fonte e expôs a mensagem escondida. O juiz aplicou multa de R$ 84 mil, correspondente a 10% do valor da causa, às advogadas, classificando a conduta como sabotagem do sistema judicial e ataque à integridade da atividade jurisdicional. A seccional do Pará da Ordem dos Advogados do Brasil suspendeu cautelarmente as profissionais por 30 dias e encaminhou o caso ao Tribunal de Ética e Disciplina.

O Superior Tribunal de Justiça também tem adotado medidas rigorosas contra o problema. O sistema de inteligência artificial da corte conta com três níveis de proteção que isolam, filtram e neutralizam comandos maliciosos antes que cheguem ao modelo principal. Além disso, o tribunal determinou a instauração de inquérito policial e procedimento administrativo para apurar criminalmente as tentativas de fraude identificadas em seu acervo de processos.

Magistrados de diferentes instâncias têm enquadrado a inserção de comandos ocultos como ato atentatório à dignidade da Justiça ou como litigância de má-fé. As sanções aplicadas incluem multas severas e o acionamento dos órgãos disciplinais da OAB para investigar os profissionais envolvidos.

O episódio evidencia uma tensão crescente entre a automação do Judiciário e a integridade processual. A adoção de sistemas de inteligência artificial por tribunais brasileiros tem como objetivo agilizar a triagem e reduzir o volume de processos, mas a existência de vulnerabilidades como o prompt injection mostra que a tecnologia também cria novos vetores de fraude que exigem salvaguardas específicas.

Os tribunais têm respondido com investimentos em segurança tecnológica, como filtros de conteúdo e mecanismos de detecção de comandos embutidos, além de enquadramentos jurídicos rigorosos para coibir a prática. A convergência entre direito e tecnologia, no entanto, segue desafiando o sistema de justiça a equilibrar eficiência e confiabilidade.

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