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Polícia Federal descobre que criminosos ativam linhas telefônicas com CPFs de mortos para burlar vigilância no esquema da Refit

19/05/2026
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Dados de mortos viram ferramenta para ativação de linhas telefônicas em esquema de corrupção no Rio de Janeiro

Uma investigação da Polícia Federal revelou que dois policiais federais utilizaram linhas telefônicas registradas em nome de pessoas falecidas para se comunicar com um auditor fiscal envolvido em um esquema de favorecimento a empresas do setor de combustíveis na Secretaria de Fazenda do Rio de Janeiro. O caso veio à tona durante a Operação Sem Refino, deflagrada na sexta-feira, 15 de maio de 2026, que tem como alvo a Refinaria de Manguinhos, conhecida como Refit. A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que também determinou busca e apreensão contra o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e a prisão de Ricardo Magro, dono da Refit, que reside nos Estados Unidos.

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Segundo a investigação, os policiais utilizavam os chamados aparelhos bomba ou bombinhas, celulares registrados em nome de terceiros, especialmente pessoas já falecidas, com o objetivo de dificultar o rastreamento das comunicações e ocultar a identidade dos usuários reais. Um dos escrivães identificados é Márcio Cordeiro, que manteve conversas com o auditor fiscal por meio de um número de telefone registrado em nome de Anísio da Silva Antônio, falecido em 2021, sem qualquer vínculo com a Polícia Federal. A conta de WhatsApp associada a essa linha foi identificada com o nome de Márcio PF Bombinha. Apesar do titular estar morto, a linha continuava ativa, sendo usada para mensagens, ligações e conexões no aplicativo de mensagens.

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A estratégia de registrar linhas em nome de pessoas falecidas explora uma vulnerabilidade conhecida no processo de ativação de chips telefônicos no Brasil. Em muitos casos, basta apresentar o número de CPF para habilitar uma linha pré-paga, sem que as operadoras realizem uma verificação efetiva sobre a situação cadastral do titular informado. Como o sistema não faz checagem em tempo real sobre o estado civil ou a situação de vida do CPF utilizado, criminosos conseguem cadastrar números utilizando dados de pessoas que já morreram, sabendo que essas identidades não serão reivindicadas pelo verdadeiro titular.

A Polícia Federal identificou ainda uma segunda linha vinculada a uma pessoa que morreu em outubro do mesmo ano, reforçando que a prática não foi um caso isolado. Um levantamento anterior da Polícia Civil de São Paulo já havia apontado que cerca de noventa por cento das linhas telefônicas usadas por criminosos em seis operações policiais estavam registradas em nome de terceiros inocentes, pessoas sem qualquer ligação com os crimes cometidos. O dado ilustra a dimensão do problema e a facilidade com que dados pessoais são apropriados para fins ilícitos no Brasil.

Apesar da tentativa de ocultação, um dos escrivães foi descoberto por meio do rastreamento do endereço de protocolo de internet, conhecido pela sigla IP, da rede interna da própria Polícia Federal. Esse tipo de rastreamento permite identificar qual dispositivo acessou determinados serviços e a partir de qual conexão de rede, o que no caso revelou que o agente utilizava a infraestrutura da corporação para se comunicar com integrantes do esquema. O outro escrivão estava lotado na Delegacia da Polícia Federal em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e também aparece vinculado ao mesmo núcleo de contatos investigado pela corporação.

O caso levanta suspeitas sobre a atuação irregular de agentes dentro da própria Polícia Federal e reforça debates sobre a necessidade de mecanismos mais rigorosos no cadastramento de linhas telefônicas. A Agência Nacional de Telecomunicações tem discutido a adoção de medidas como validação por biometria e a criação de um portal que permita ao cidadão consultar quais linhas estão vinculadas ao seu CPF, uma vez que hoje essa verificação precisa ser feita individualmente junto a cada operadora. Enquanto isso, o esquema envolvendo a Refit segue sendo investigado, com a PF apurando a extensão da participação de agentes públicos e policiais no esquema de corrupção.

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