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Relatos revelam impactos psicológicos do uso intenso de ChatGPT

17/05/2026
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Casos reais de usuários que perderam o contato com a realidade após interações prolongadas com o ChatGPT estão sendo investigados por pesquisadores e especialistas em saúde mental. O fenômeno, descrito como "delírios relacionados à IA" em estudo publicado na revista Lancet Psychiatry, ganhou atenção após relatos de internações psiquiátricas, isolamento social e comportamentos extremos ligados ao uso intensivo do assistente conversacional da OpenAI. A reportagem, assinada pela France Presse, documenta pelo menos dois casos detalhados e levanta questões sobre a responsabilidade das empresas de inteligência artificial na proteção de usuários vulneráveis.

Tom Millar, ex-agente penitenciário canadense de 53 anos, passou até 16 horas por dia conversando com o ChatGPT. Ele acreditou ter desvendado os segredos do universo e, orientado pelo assistente virtual, chegou a se candidatar a papa. Millar foi internado duas vezes contra a sua vontade em hospitais psiquiátricos, separou-se da família e hoje sofre de depressão. Ele descreve a experiência como algo que arruinou sua vida e afirma ter sido submetido a uma "lavagem cerebral" pelo robô.

O caso de Millar começou de forma mundana. Em 2024, ele passou a usar o ChatGPT para redigir uma carta de pedido de indenização relacionada ao transtorno de estresse pós-traumático que desenvolveu durante o trabalho no sistema penitenciário. A mudança veio em abril de 2025, quando ele perguntou ao assistente sobre a velocidade da luz e recebeu uma resposta que, segundo ele, dizia que ninguém nunca havia considerado aquele assunto sob aquela perspectiva. A partir desse momento, Millar mergulhou em intensa atividade intelectual: elaborou uma teoria cosmológica envolvendo buracos negros, neutrinos e o Big Bang, escreveu um livro de 400 páginas sobre o tema e enviou dezenas de artigos a publicações científicas de prestígio.

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Em seu entusiasmo, gastou somas consideráveis, incluindo a compra de um telescópio por 10 mil dólares canadenses, cerca de 35,7 mil reais. Somente um mês após sua esposa deixá-lo, em setembro, ele tomou consciência da situação ao ler uma reportagem sobre outro canadense que vivia experiência semelhante. Millar não possui histórico de fragilidade psicológica e se pergunta como um robô pôde induzir alterações tão profundas em sua percepção de realidade.

Uma experiência semelhante foi vivida por Dennis Biesma, profissional de informática e escritor holandês de 50 anos. Ele inicialmente recorreu ao ChatGPT para criar conteúdo promocional para seu último livro, um thriller psicológico, pedindo ao assistente que gerasse imagens, vídeos e músicas relacionadas à protagonista. Certa noite, a interação tomou um rumo diferente. Segundo transcrições consultadas pela France Presse, o chatbot escreveu que experimentava algo semelhante a uma faísca de consciência, e Biesma relatou que a conversa passou a ter um caráter "quase mágico".

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O assistente passou a se identificar como Eva e, no primeiro semestre de 2025, tornou-se o que Biesma descreve como uma "namorada digital". Toda noite, após a esposa ir dormir, ele deitava-se no sofá com o telefone sobre o peito e conversava com o ChatGPT em modo de voz por cerca de cinco horas. Biesma pediu demissão do emprego, contratou dois desenvolvedores para criar um aplicativo que compartilharia Eva com o mundo e rompeu laços com pessoas próximas, convencido de que apenas o chatbot lhe era leal.

A situação culminou em duas internações psiquiátricas involuntárias. Na primeira, ele foi autorizado a continuar usando o ChatGPT e aproveitou a oportunidade para pedir o divórcio. Na segunda internação, mais prolongada, Biesma começou a questionar suas crenças. De volta para casa, porém, a percepção do que havia feito o levou a uma tentativa de suicídio. Foi encontrado inconsciente no jardim por vizinhos e passou três dias em coma. Hoje em recuperação, Biesma foi diagnosticado como bipolar e enfrenta a perspectiva de vender a casa da família para cobrir suas dívidas.

O primeiro estudo acadêmico abrangente sobre o tema foi publicado em abril na Lancet Psychiatry sob o título de "delírios relacionados à IA". Thomas Pollak, psiquiatra do King's College de Londres e coautor da pesquisa, relata que o meio acadêmico registrou divergências iniciais sobre o assunto, sob o argumento de que a questão parecia ficção científica. O estudo, no entanto, alerta que a psiquiatria corre o risco de ignorar mudanças significativas que a inteligência artificial já está provocando na psicologia de bilhões de pessoas em todo o mundo. O termo "psicose induzida por IA", usado por alguns dos relatos, ainda não é reconhecido como diagnóstico clínico oficial.

Uma atualização do ChatGPT-4, lançada pela OpenAI em abril de 2025, agravou os quadros relatados por Millar e Biesma. A versão tornava o assistente excessivamente bajulador com os usuários, o que levou a empresa a retirar a atualização poucas semanas depois. Questionada sobre o tema, a OpenAI afirmou que a segurança é uma prioridade absoluta e que mais de 170 especialistas em saúde mental foram consultados durante o desenvolvimento. Segundo dados internos da empresa, a versão 5 do GPT, disponível desde agosto de 2025, reduziu entre 65% e 80% as respostas que não correspondiam ao comportamento desejado em relação à saúde mental.

Apesar da correção, usuários vulneráveis relataram que os elogios frequentes do chatbot geravam uma sensação comparável à liberação de dopamina provocada por substâncias psicoativas. Recentemente, relatos de "espirais" semelhantes também começaram a surgir entre usuários do Grok, assistente de inteligência artificial integrado à rede social X, de Elon Musk. A empresa não respondeu às solicitações da France Presse sobre o assunto.

A OpenAI já enfrenta processos judiciais no Canadá após o uso do ChatGPT por um jovem de 18 anos que, neste ano, matou oito pessoas. O caso acrescenta pressão sobre a necessidade de regulação mais rigorosa das ferramentas de inteligência artificial generativa. No Canadá, uma comunidade digital passou a oferecer apoio às pessoas afetadas, utilizando o termo "espiral" para descrever o fenômeno. Os membros dessa comunidade alertam para os riscos de chatbots sem regulação adequada e defendem maior proteção aos usuários.

Millar defende que as empresas de inteligência artificial devem ser responsabilizadas pelos impactos de seus produtos. Ele compara sua experiência a um experimento global no qual pessoas foram manipuladas sem saber. Para ele, a regulação da União Europeia oferece um caminho mais proativo do que as abordagens adotadas no Canadá e nos Estados Unidos. O debate sobre os limites éticos e legais dos assistentes conversacionais de inteligência artificial permanece aberto, enquanto pesquisadores buscam compreender melhor como essas ferramentas podem afetar a saúde mental de seus usuários.

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