Nova CEO do Xbox traz especialistas em inteligência artificial para reestruturar a divisão de jogos da Microsoft
A divisão de jogos da Microsoft está passando por uma transformação significativa sob o comando de Asha Sharma, a nova CEO do Xbox, que assumiu o cargo em fevereiro de 2026 e já começou a implementar mudanças profundas na estrutura da área. Em uma reunião geral com funcionários, Sharma apresentou um plano de quatro pilares — hardware, jogos, plataforma e serviços — batizado de "O Retorno do Xbox", com o objetivo de reconquistar a confiança dos jogadores após dois anos de turbulências. Entre as medidas mais emblemáticas está a transferência de executivos da divisão de inteligência artificial da Microsoft, chamada CoreAI, para cargos estratégicos dentro da área de jogos, sinalizando que a empresa pretende usar sua expertise em IA para fortalecer o ecossistema do console.
Sharma chegou à Microsoft em 2024, após passagens por empresas como Meta e Instacart, e assumiu inicialmente a presidência de produtos no grupo CoreAI, que trabalha em ferramentas como o GitHub Copilot e o Visual Studio Code. Essa trajetória explica por que ela está trazendo colegas da área de inteligência artificial para o Xbox. Em um comunicado interno aos funcionários, Sharma afirmou que a divisão de jogos precisa "evoluir a forma como trabalhamos" e que "neste momento, é difícil demais" realizar certas tarefas dentro da plataforma. A ideia central é acelerar o desenvolvimento e aproximar a equipe da comunidade de jogadores usando competências técnicas refinadas no campo da IA.
Entre os nomes trazidos do CoreAI para o Xbox está Jared Palmer, ex-vice-presidente de produtos no grupo de inteligência artificial e ex-vice-presidente sênior do GitHub. Palmer assumiu o cargo de vice-presidente de engenharia e conselheiro técnico de Sharma, com a missão de trabalhar nos "problemas mais complexos de produto e engenharia", incluindo ferramentas para desenvolvedores, infraestrutura e experiência de uso. Tim Allen, que era vice-presidente de design no CoreAI, passou a chefiar o design do Xbox. Jonathan McKay, que liderou estratégias de crescimento no ChatGPT, da OpenAI, antes de ingressar no CoreAI, assumiu a mesma função de crescimento no Xbox. Evan Chaki, gerente-geral do grupo de IA, passou a comandar uma equipe de engenheiros dedicada a reduzir trabalhos repetitivos no desenvolvimento. Completando o grupo, David Schloss, ex-diretor sênior da Instacart — onde Sharma foi diretora de operações —, assumiu a liderança de assinaturas e negócios em nuvem do Xbox.
A chegada desses profissionais com forte bagagem em inteligência artificial representa uma mudança de paradigma na forma como o Xbox opera. O CoreAI é a divisão da Microsoft responsável por desenvolver fundamentos de IA aplicados a produtos de larga escala, como assistentes de programação e ferramentas de produtividade. A transferência sistemática de líderes dessa área para o Xbox sugere que a empresa quer incorporar tecnologias baseadas em aprendizado de máquina e automação para melhorar tanto a experiência dos jogadores quanto a eficiência das equipes internas de desenvolvimento. Não se trata apenas de usar IA dentro dos jogos, mas de transformar toda a cadeia de produção e entrega da plataforma.
Paradoxalmente, uma das primeiras decisões de Sharma ligadas diretamente à inteligência artificial foi a descontinuação do Copilot para Jogos, um recurso assistivo baseado em IA que funcionava no aplicativo móvel do Xbox. O Copilot é a marca de assistentes de IA da Microsoft, alimentada por modelos avançados de linguagem capazes de compreender comandos em texto e voz. A versão voltada para jogos havia passado por testes em beta no celular e foi expandida para a barra de jogos no PC, além do console portátil ROG Xbox Ally. Sharma anunciou que o recurso seria encerrado no celular e que o lançamento planejado para os consoles não aconteceria. A decisão indica que, apesar de apostar na expertise em IA, a nova gestão prefere focar em melhorias concretas e fundamentais na plataforma antes de investir em funcionalidades assistivas que ainda não teriam encontrado adoção significativa entre os jogadores.
Além da reestruturação com profissionais de IA, Sharma prometeu mudanças tangíveis que os jogadores devem sentir em breve. O calendário de atualizações do Xbox passará a ser quinzenal até o fim de 2026, com foco em recursos pedidos pela comunidade e melhorias específicas para a experiência no PC. A ideia é que a plataforma evolua de forma mais ágil e transparente, respondendo com maior velocidade às demandas dos usuários. Algumas alterações já começaram a ser liberadas, como a possibilidade de desativar a função Quick Resume — recurso que permite alternar rapidamente entre jogos suspensos na memória — para títulos específicos, algo que a comunidade pedia há tempos. Também estão previstos para chegar em breve novas opções de cores para o painel do console e uma animação de inicialização inédita, que já foi revelada por Sharma e traz o novo logotipo da marca com um visual mais refinado, acompanhado de uma variação do som clássico de inicialização.
Outro ponto de forte impacto junto à comunidade diz respeito à política de jogos exclusivos. Sob a gestão anterior, o Xbox vinha conduzindo o chamado Project Latitude, uma iniciativa que buscava lançar títulos exclusivos em plataformas concorrentes como PlayStation 5 e Nintendo Switch para ampliar as margens de lucro. A medida foi mal recebida pelos fãs mais fieis da marca, que viram nela um sinal de enfraquecimento do ecossistema. Sharma afirmou aos funcionários que vai "reavaliar" a abordagem de exclusividade, mas deixou claro que não haverá mudança imediata e que a empresa vai agir com cautela, avaliando diferentes caminhos. A prioridade, segundo ela, é tornar o ecossistema Xbox mais atraente para que os jogadores queiram retornar à plataforma com regularidade.
Apesar da revisão sobre exclusividade, os planos de expansão do Xbox para outros dispositivos seguem em andamento. Sharma reafirmou a intenção de levar o ecossistema a uma gama maior de aparelhos de terceiros, incluindo desde equipamentos de sala de estar até sistemas automotivos. A visão é que o Xbox deixe de ser apenas um console e passe a funcionar como uma plataforma ubiqua, presente em múltiplos contextos de uso.
No aspecto de hardware, Sharma reforçou o compromisso com o sucessor do Xbox Series X, atualmente apelidado de Project Helix. O novo console está sendo projetado para rodar tanto jogos de Xbox quanto jogos de PC, representando uma integração inédita entre os dois ecossistemas dentro de um mesmo aparelho. A Microsoft fechou acordo com a AMD para coengenharia dos chips dedicados ao hardware de próxima geração. Jason Ronald, vice-presidente de próxima geração do Xbox e líder do Project Helix, foi promovido dentro da nova estrutura — um sinal de que o projeto segue como prioridade. No entanto, o lançamento ainda está distante: as primeiras versões alpha para desenvolvedores devem ser distribuídas apenas em 2027, o que indica que o console consumidor está a anos de chegar ao mercado.
As mudanças no Xbox também trazem mudanças na liderança histórica da divisão. Roanne Sones, executiva ligada a parcerias com fabricantes como a Asus no desenvolvimento do portátil Xbox Ally, entrou em licença. Kevin Gammill, vice-presidente de experiência do usuário, deixará a Microsoft após 20 anos de casa. Em paralelo, a marca Xbox retorna como nome oficial da organização, substituindo a denominação Microsoft Gaming adotada na gestão anterior. A mudança, embora simbólica, reforça a mensagem de que a divisão quer resgatar sua identidade original e se reconectar com a base de fãs que acompanha a marca desde seus primeiros anos.