Governo chinês bloqueia aquisição da Manus pela Meta e põe em xeque a rota de Singapura para startups de IA
O governo da China determinou que a Meta Platforms desfaça a compra da Manus, startup de inteligência artificial fundada por engenheiros chineses e sediada em Singapura, em uma transação avaliada em cerca de dois bilhões de dólares. A decisão foi anunciada em 27 de abril de 2026 pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, principal órgão de planejamento econômico do país asiático, em comunicado que proíbe o investimento estrangeiro no projeto da Manus e exige que as partes envolvidas revertam a operação. O bloqueio surpreendeu o mercado porque a aquisição já estava amplamente concluída, com cerca de cem funcionários da Manus ocupando escritórios da Meta em Singapura desde março e os fundadores da startup assumindo cargos executivos na empresa de Mark Zuckerberg.
A história da Manus começou na China. As primeiras versões do produto foram desenvolvidas pela Beijing Butterfly Effect Technology, startup criada em 2022 pelo empreendedor Xiao Hong, que atua como diretor-executivo, e por Ji Yichao, cofundador e cientista-chefe. A empresa se tornou conhecida por criar um sistema de inteligência artificial autônoma capaz de planejar, buscar informações e executar tarefas complexas de forma independente, indo além do que os chatbots convencionais oferecem. A tecnologia da Manus foi apresentada ao público em março de 2025 e rapidamente ganhou destaque no setor de inteligência artificial por sua capacidade de interagir com ambientes digitais, coletar feedback e utilizar essas respostas como novos estímulos para refinar suas ações.
Antes de ser adquirida, a Manus transferiu sua sede para Singapura. A mudança havia sido inicialmente aprovada pela própria Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma chinesa. A relocalização para o país do Sudeste Asiático seguiu uma estratégia cada vez mais comum no mundo das startups chinesas de tecnologia: estabelecer a operação principal em uma jurisdição politicamente neutra para facilitar negociações internacionais e atrair investidores ocidentais. Esse movimento passou a ser conhecido no mercado como a prática de aparentar uma origem distinta da chinesa, aproveitando a reputação de Singapura como centro financeiro e tecnológico global.
A Meta anunciou a aquisição da Manus em dezembro de 2025, com valores estimados entre dois e três bilhões de dólares. O plano da empresa americana era integrar a tecnologia de agentes autônomos da startup diretamente ao seu assistente de inteligência artificial, o Meta AI. A operação exigiria a saída completa da Manus de qualquer vínculo com propriedade ou operação na China, condição que não impediu a reação das autoridades chinesas. Segundo reportagens publicadas pelo Financial Times e pelo South China Morning Post, a Meta e a Manus não informaram o governo chinês antes de formalizar o acordo, o que teria desencadeado uma investigação poucos dias depois do anúncio.
Em janeiro de 2026, o Ministério do Comércio da China iniciou uma revisão da transação para verificar se o negócio respeitava as regras de controle de exportações e de transferência de tecnologia entre fronteiras. As autoridades chinesas passaram a examinar se a venda da Manus configurava risco à segurança nacional, dado que o país possui regulamentações rígidas sobre a transferência de tecnologias avançadas de inteligência artificial para o exterior. O episódio se insere em um cenário mais amplo de disputa tecnológica entre Pequim e Washington, com ambos os lados buscando restringir o acesso do outro a inovações consideradas estratégicas.
Em março de 2026, a situação se agravou. Xiao Hong e Ji Yichao foram convocados a uma reunião em Pequim com a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma. Durante o encontro, os dois fundadores foram interrogados sobre possíveis violações das regras de investimento estrangeiro direto e, segundo o Financial Times, foram orientados a não deixar o território chinês. A medida restringiu fisicamente os líderes da startup enquanto o processo de revisão do acordo seguia em andamento, demonstrando a firmeza do governo chinês em impedir a transferência da tecnologia para os Estados Unidos por meio da aquisição.
A decisão final, anunciada em abril, marcou um precedente no setor. Embora o órgão regulador chinês não tenha detalhado em seu comunicado os motivos específicos da proibição, a ação demonstra que Pequim está disposta a intervir mesmo em operações formalizadas fora de seu território quando identifica risco de vazamento de tecnologias sensíveis. O caso da Manus mostra que a simples relocação de sede para Singapura não é suficiente para contornar o controle chinês sobre empresas originárias de seu território, especialmente no campo da inteligência artificial, área considerada prioritária pelo governo para o desenvolvimento do país.
Para o ecossistema global de startups de inteligência artificial, o bloqueio representa um alerta. Empresas fundadas na China que buscam internacionalização por meio da mudança de jurisdição podem encontrar limites cada vez mais claros na capacidade de operar com autonomia frente às autoridades de seu país de origem. A prática de estabelecer sedes em países politicamente neutros para escapar de restrições regulatórias vem perdendo eficácia à medida que governos fortalecem mecanismos de fiscalização sobre transferências de tecnologia avançada.
A Meta, por enquanto, não se pronunciou publicamente sobre os próximos passos após a decisão da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma. Com cerca de cem funcionários da Manus já integrados à sua estrutura em Singapura, a empresa americana precisará determinar como proceder com a equipe absorvida e com a tecnologia desenvolvida pela startup. O caso também reforça a tendência de que o mercado global de inteligência artificial seguirá sendo moldado não apenas pela competição entre empresas, mas também por decisões governamentais que definem quais tecnologias podem ou não cruzar fronteiras nacionais.