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Escritórios de Advocacia Entram em Nova Era: Desafios e Oportunidades com a Inteligência Artificial

22/04/2026
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Escritórios de advocacia entram em nova fase de adoção de inteligência artificial com desafios operacionais e mudança nos modelos de cobrança

O mercado jurídico mundial atravessa uma terceira fase de relacionamento com a inteligência artificial, segundo análise recente de Olivier Chaduteau, consultor especializado em transformação digital do setor legal, com sede em Paris, em entrevista ao veículo Artificial Lawyer. Nos estágios anteriores, os escritórios de advocacia primeiro ignoraram a tecnologia como algo irrelevante para o trabalho especializado e, em seguida, passaram a adquirir licenças de modelos de linguagem de grande porte — sistemas treinados com grandes volumes de dados para gerar e compreender texto — basicamente para sinalizar inovação a parceiros e clientes, sem utilização efetiva. Agora, segundo o consultor, o setor chegou ao momento em que as organizações reconhecem a necessidade de engajar de fato com as ferramentas de inteligência artificial disponíveis e integrá-las à operação diária.

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Para que esse engajamento operacional se concretize, Chaduteau aponta que os escritórios precisam enfrentar questões de gestão de mudança, definição de modelos operacionais adequados e, sobretudo, reforma dos próprios modelos de negócio. Na prática, isso significa reescrever fluxos de trabalho, capacitar os advogados no uso das novas ferramentas, estabelecer padrões claros para a aplicação da inteligência artificial e definir em quais pontos do processo a revisão humana continua indispensável. Segundo o consultor, essas decisões são de natureza política e organizacional, consideravelmente mais complexas do que a escolha técnica de qual modelo de linguagem ou serviço específico adquirir, que marcou a fase anterior.

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Um dos impactos mais profundos dessa transformação recai sobre a forma como os escritórios cobram por seus serviços. Tradicionalmente, o setor jurídico opera com base em horas trabalhadas, um modelo conhecido como honorários por tempo despendido. Com a inteligência artificial acelerando tarefas como elaboração de peças, revisão de documentos e pesquisa jurisprudencial, a correlação direta entre o tempo investido por um advogado e o valor gerado para o cliente tende a se enfraquecer. Chaduteau observa que muitos escritórios já vinham discutindo alternativas ao faturamento por horas, e a automação acelerada pela inteligência artificial reforça a tendência de adoção de precificação baseada em valor entregue, na qual o cliente paga pelo resultado ou pela solução oferecida, e não pelo tempo gasto para produzi-la.

Diante desse cenário, a gestão dos escritórios de grande porte se depara com dois caminhos possíveis. O primeiro consiste em manter o modelo de cobrança vigente pelo maior tempo possível, utilizando a inteligência artificial para otimizar a relação entre custo e receita dentro da estrutura atual. O segundo, mais arriscado e transformador, envolve redesenhar os serviços e os preços em sintonia com fluxos de trabalho automatizados, oferecendo aos clientes propostas que reflitam as eficiências alcançadas. A perspectiva de Chaduteau é de que o mercado próprio forçará a mudança: um escritório, possivelmente novo e sem amarras com práticas tradicionais de cobrança, começará a oferecer serviços superiores a preços mais competitivos, e o restante do setor precisará se adaptar para não perder espaço.

Além da pressão interna dos escritórios, os departamentos jurídicos corporativos também enfrentam exigências crescentes por parte das empresas que os contratam. Áreas de compliance, finanças e tecnologia já implementam inteligência artificial em seus processos, e os departamentos legais são cobrados a demonstrar resultados semelhantes. Essa demanda por evidências de competência e eficiência tende a ter peso maior, a longo prazo, do que qualquer entusiasmo interno pela tecnologia. A expectativa é de que a capacidade de utilizar inteligência artificial passe a integrar formalmente os processos de seleção de escritórios, concorrências e auditorias contínuas por parte dos clientes.

Nesse contexto, Chaduteau projeta que os escritórios serão questionados sobre quais tarefas contam com suporte de inteligência artificial, quais salvaguardas estão em vigor, como a confidencialidade do cliente é protegida dentro desses sistemas e quais efeitos mensuráveis as ferramentas produzem sobre a velocidade e a qualidade dos serviços prestados. Essas exigências transformam a tecnologia de um diferencial de marketing em um critério objetivo de competitividade. Para os escritórios que desejam se manter em painéis de prestadores de serviços corporativos, a mera posse de licenças de inteligência artificial já não será suficiente — será necessário provar que a tecnologia gera valor real e operacional.

Apesar das tensões econômicas e organizacionais, Chaduteau ressalta um aspecto frequentemente negligenciado no debate sobre automação no setor jurídico. A inteligência artificial, ao assumir tarefas repetitivas e de menor complexidade, libera os advogados para se concentrarem em atividades mais estratégicas e intelectualmente estimulantes. Assim como em outras profissões, a redução de atividades rotineiras tende a aumentar a satisfação profissional e a disposição para engajar seriamente com a tecnologia. Em escritórios de grande porte, isso aponta para aplicações específicas por área de atuação, com supervisão adequada e casos de uso variados conforme a natureza do trabalho.

Para o consultor, os escritórios que mais se beneficiarão dessa transição serão aqueles que tratarem a inteligência artificial como uma decisão estratégica de gestão, em vez de esperar que a pressão do mercado os obrigue a reagir. Isso implica implementação disciplinada, demonstração concreta de valor para o cliente, cuidado rigoroso com confidencialidade e soberania dos dados, e disposição genuína para reavaliar se o modelo de cobrança ainda corresponde à realidade do trabalho executado. A transição do uso simbólico para a adoção operacional de inteligência artificial no setor jurídico já está em curso, e as escolhas feitas pelos escritórios nas próximas etapas definirão sua posição competitiva no mercado.

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