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Geração Z nos Estados Unidos: A Dupla Face da Inteligência Artificial

17/04/2026
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Geração Z nos Estados Unidos recorre cada vez mais à inteligência artificial generativa no dia a dia, mas o sentimento em relação à tecnologia deteriorou-se de forma significativa nos últimos meses. Um estudo conduzido pelo instituto de pesquisa Gallup em parceria com a Walton Family Foundation e a GSV Ventures, com mais de 1.500 entrevistados entre 14 e 29 anos, revelou que mais da metade desses jovens utiliza sistemas de IA generativa — aqueles capazes de criar textos, imagens e respostas a partir de comandos simples — com regularidade. A frequência, porém, não se traduz em confiança. Os dados, coletados entre fevereiro e março de 2026, mostram uma tendência clara de desilusão entre os jovens norte-americanos.

No levantamento anterior, realizado em 2025, 27% dos participantes declararam sentir esperança em relação à inteligência artificial. Em 2026, esse índice recuou nove pontos percentuais e caiu para 18%. Ao mesmo tempo, um terço dos entrevistados relatou sentir raiva da tecnologia. Para Zach Hrynowski, pesquisador sênior de educação da Gallup, a mudança é reveladora. Ele observou que a Geração Z tornou-se cada vez mais cética e negativa, partindo de uma posição que, mesmo no ano anterior, já não era particularmente entusiasmada.

A desconfiança é especialmente acentuada entre os jovens que já estão no mercado de trabalho. Quase metade dos entrevistados empregados afirmou que os riscos da inteligência artificial superam as possíveis vantagens em suas atividades profissionais, um aumento de onze pontos percentuais em relação ao resultado anterior. Apenas 15% desse grupo considerou a IA como um benefício completo. A preocupação central é o impacto sobre as oportunidades de emprego, sobretudo em posições de entrada, que historicamente são o primeiro passo de carreiras profissionais.

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Mesmo reconhecendo que a tecnologia pode trazer ganhos de eficiência para tarefas do cotidiano, como trabalhos escolares e atividades profissionais, os jovens manifestaram receio de que o uso excessivo comprometa habilidades essenciais. A criatividade e o pensamento crítico foram apontados como as capacidades mais ameaçadas pela dependência de sistemas automatizados. Muitos entrevistados temem que, ao delegar tarefas intelectuais a máquinas, acabem por atrofiar competências que são fundamentais tanto para a vida pessoal quanto para o desenvolvimento profissional.

As aplicações práticas da inteligência artificial na rotina dessa geração são variadas. Metade dos participantes informou utilizar a tecnologia diariamente ou semanalmente, com índices ainda maiores entre os mais jovens. Cerca de 80% já haviam experimentado ao menos alguma ferramenta do tipo. Entre os usos mais comuns estão a busca por conselhos sobre relações sociais, a ajuda com tarefas escolares e até a orientação na escolha de uma universidade, tarefas que antes dependiam exclusivamente de interações humanas ou de pesquisas tradicionais.

A substituição de interações com pessoas por diálogos com chatbots — programas de conversa baseados em inteligência artificial — foi citada como uma das principais fontes de apreensão, ao lado da disseminação de desinformação e da ameaça ao primeiro emprego. Sydney Gill, de 19 anos e estudante caloura da Universidade Rice, em Houston, ilustrou esse sentimento ao afirmar que tudo aquilo que lhe interessa tem potencial para ser substituído nos próximos anos. Ela disse ter sido otimista em relação à IA durante o ensino médio, mas mudou de perspectiva.

Abigail Hackett, de 27 anos, que atua no setor de turismo e hospitalidade, representou outro ângulo dessa ambivalência. Ela reconheceu que algumas ferramentas de IA economizam tempo no trabalho, mas afirmou que evita usá-las em sua vida pessoal por medo de que suas habilidades sociais sejam afetadas. Para ela, determinadas experiências são profundamente humanas e devem permanecer assim. Essa postura reflete uma tensão presente em boa parte dos entrevistados: a utilidade prática da tecnologia confronta-se com o valor atribuído às interações genuínas entre pessoas.

Nem todos, contudo, adotam uma perspectiva negativa. Ryan Guckian, de 30 anos, que trabalha com testes de software, destacou o uso de chatbots para melhorar linhas de código e até para pensar em receitas culinárias. Sua visão aponta para uma convivência mais harmoniosa com a tecnologia, em que as ferramentas servem como extensão das capacidades humanas em vez de substituí-las. Esse tipo de relato demonstra que, mesmo no contexto de crescente desconfiança, há quem encontre na IA um aliado produtivo para o cotidiano.

Apesar dos sentimentos contraditórios, há um consenso entre os jovens sobre a necessidade de dominar essas ferramentas. Quase metade dos entrevistados que ainda estão no ensino médio demonstrou consciência de que o domínio da inteligência artificial será essencial ao longo de suas carreiras. Essa percepção sugere que, mesmo diante do medo e da frustração, a Geração Z reconhece que a tecnologia veio para ficar e que ignorá-la pode significar uma desvantagem competitiva no futuro.

O estudo também evidenciou que o sentimento predominante entre os jovens ao falar sobre inteligência artificial é a curiosidade. Quando questionados sobre emoções, a curiosidade foi a resposta mais frequente, o que indica que, por trás da apreensão, existe um interesse genuíno em compreender como essas ferramentas funcionam e como podem ser integradas à vida de forma responsável. Esse dado oferece um contraponto ao pessimismo e deixa aberta a possibilidade de que a percepção dessa geração evolua à medida que a tecnologia amadureça e se torne mais transparente.

A pesquisa chega em um momento de intenso debate sobre o papel da inteligência artificial na educação e na formação dos jovens nos Estados Unidos. Pais, estudantes, professores e formuladores de políticas públicas discutem ativamente como a tecnologia deve ser incorporada ao ambiente escolar e quais limites devem ser estabelecidos. As perguntas que a pesquisa levanta não têm respostas simples, mas os dados fornecem um retrato fiel de como a primeira geração a crescer com a IA generativa está lidando com suas consequências — entre a dependência prática e a desconfiança crescente.

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